quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Entrevista: Jorge Lacerda, presidente da CBT


O post de hoje inaugura uma seção que espero conseguir fazer ser freqüente por aqui: a de entrevistas. E ninguém melhor para dar o pontapé inicial do que o presidente da Confederação Brasileira de Tênis, o senhor Jorge Lacerda.

Nos últimos dias estive trocando mensagens com ele no intuito de obter as informações necessárias e devo dizer que só tenho a agradecê-lo pela educação, gentileza e atenção que me dedicou sempre que precisei. Falamos sobre política, apoio dos governos, estrutura, categorias de base, patrocínio, entre outras coisas importantes que devemos saber e divulgar, para que o tênis seja cada vez mais popular e consiga uma infra-estrutura condizendo com a nobreza do esporte.

Devo dizer que fiquei surpreso com algumas respostas, feliz com outras, infeliz com mais algumas. Vi o quanto é preciso fazer ainda para que este esporte seja levado a sério pelos governos neste país, a fim de que cresça e possamos revelar com solidez mais e mais jogadores de ponta.

Para se comunicar com Jorge Lacerda, ele disponibiliza uma conta no Twitter onde ele mesmo responde e publica: @presidentecbt.

Uma última observação: os destaques em negrito nas respostas foram feitas por mim, por julgar este ou aquele ponto mais relevante/importante.

Com a palavra o presidente da Confederação Brasileira de Tênis, Jorge Lacerda.

Primeiramente, obrigado por me conceder parte de seu tempo para esta entrevista. É um imenso prazer. Vamos começar falando de algo um tanto quanto batido, mas muito importante nos próximos anos: o apoio dos governos ao tênis. Como anda, neste momento, a relação da CBT e os governos municipais, estaduais e federais (principalmente este último)?

O apoio ao Esporte melhorou muito no Governo do presidente Lula. Tivemos a Lei Agnelo/Piva, Lei de Incentivo Fiscal, criação do Ministério do Esporte, bolsa atleta e o grande incentivo com a liberação das Estatais para patrocinar mais de uma Confederação. Exemplo dos Correios que tem Natação, Futsal e Tênis. Quanto aos estados muitos já possuem as suas leis, como Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e outros. Mas temos que levar para mais estados. Alguns municípios têm leis, mas são leis pequenas no que diz respeito a valores para disponibilizar aos projetos. A nossa relação com os estados e municípios é muito boa, mas temos estados com mais interesse e outros com menos interesse. O maior exemplo é São Paulo, tanto a cidade quanto o estado. Apresentamos grandes projetos à cidade, mas não conseguimos até o momento viabilizar um que seja (estamos entrando no sétimo ano de gestão da CBT). No âmbito estadual, com o antigo governador não conseguimos nada, fomos completamente enganados pelo Secretário do Meio Ambiente, Xico Graziano, que prometeu o terreno pro nosso CT e nos fez trabalhar por mais de ano e meio, e quando conseguimos resolver a liberação do imóvel recebemos uma carta de três linhas dizendo que não teriam mais interesse no nosso projeto. Falta de caráter mesmo. Mas faz parte da índole arrogante deste senhor. Já com o Governo Federal estamos lado a lado e continuaremos. O Ministério tem nos apoiando cada dia mais e os resultados estão aí para que todos possam verificar.

Nota: Quando lembrei o entrevistado de que a lei Agnelo/Piva foi sancionada em 2001, ainda no governo FHC, o mesmo respondeu: “Na verdade é Lei Agnelo, pois o Piva copiou a do Agnelo, que foi o Ministro do Esporte do Governo Lula. O que falamos é que a Lei passou a ter força quando ele entrou no Ministério. A regulamentação foi acelerada e começou a chegar às Confederações de 2002 pra 2003. E a mesma surgiu do legislativo e não do executivo, ele (FHC) apenas não vetou”.

E com relação aos investimentos privados, como andam as relações com a CBT? Sabemos que há alguns patrocinadores, digamos, permanentes do tênis no Brasil, mas o que ainda falta? Que tipo de negócio poderia ser feito entre as empresas e a CBT ou os clubes e técnicos que ensinam o esporte pelo país?

Hoje, com os acertos que promovemos nos últimos anos e com a chegada dos Correios, passamos a ter credibilidade. A Lei de Incentivo Fiscal Federal nos aproximou muito das empresas privadas, e temos vários apoiadores e patrocinadores, como Gillette, Mapfre, CPFL, Localiza, Nestle, Tivit, Paradise Resort, Brascourt, Gol, BNP, Icatu, Head e outras que no momento posso estar esquecendo. O COB também vem nos ajudando muito com o apoio administrativo e do Fundo das Confederações. Na verdade estamos cada dia mais fortes pela união do nosso esporte e de todas as Confederações do Brasil. E, lógico, nada melhor para o esporte brasileiro do que ser a sede da Copa do Mundo e das Olimpíadas.

O projeto da arena olímpica para o tênis parece bem interessante. O que a CBT tem em mente para manter o local funcionando e não transformá-lo em um “elefante branco”? Há algum tipo de acordo com o governo do estado do RJ para manter algum projeto permanente ali?

O projeto é muito bom e, por estarmos com muitos equipamentos projetados para um mesmo lugar, já há um plano de manutenção do COB, Governos e Confederações. E para nós do tênis não será elefante branco algum, muito pelo contrário, estamos muito necessitados de uma área neste feitio. Já temos projetos em todas as áreas, só falta o local, que agora teremos.

Pra encerrar esse assunto de governo, uma polêmica: o que você achou da frase do ex-presidente Lula ao menino da favela que queria uma quadra lá para aprender a jogar tênis?

Eu acho que um comentário é menos importante que um grande trabalho que foi feito pelo esporte brasileiro. Vejo muita gente falando, mas quem fez mais que o Presidente Lula pelo Esporte Brasileiro?

Vamos para um assunto mais interessante. Pouca gente sabe, mas o Brasil é hoje um dos países do mundo que mais tem torneios profissionais de tênis, superando, inclusive, os Estados Unidos. Em nível amador esse número é ainda mais impressionante. Mesmo assim o esporte ainda é considerado como “coisa de burguês”. A que você atribui esse “preconceito” e como a CBT está trabalhando para mudar isso?

Realmente, hoje temos o segundo maior calendário de Futures do mundo, o primeiro de Challengers da América Latina, o maior número e qualidade de cursos de capacitação de professores, melhor calendário Infanto-Juvenil, mas temos muito poucos equipamentos públicos (quadras). Mesmo o Brasil com esta extensão de terras tem menos quadras públicas do que Buenos Aires. Poucos governos acreditam nas quadras públicas e apóiam as construções. Basta verificar, não conseguimos até hoje uma área na cidade de São Paulo para fazermos nossa sede com quadras. Além disso, temos que reduzir as alíquotas de importação de bolas e raquetes. Já requeremos por mais de cinco vezes ao governo, mas nunca fomos atendidos. E olha que não temos fábricas de raquete no Brasil e de bolas, nenhuma que seja aprovada pela ITF, logo a alíquota deveria ser 0%, mas, ao contrário, é maior que a do whisky e cigarros. Além da falta de interesse dos governantes de cobrar dos clubes. Se os clubes não pagam IR, têm isenção completa – muitos não pagam IPTU e ISS – e utilizam as Leis de Incentivo Fiscais, deveriam ceder seus equipamentos para a comunidade. Se querem ter benefícios, têm que devolver pra comunidade, como ocorre na Grécia e em outros países. Se não ceder, não deveria ter benefício. Eles afirmam que fazem a base, imagina se realmente pudéssemos utilizar as quadras durante um certo período do dia. Aí sim teríamos base sendo feita. Mas aos poucos vamos chegando lá. Acredito na vontade do brasileiro e no interesse deste governo.

A CBT não tem como aumentar a atuação junto a esses clubes, cobrando a liberação das quadras, fazendo uma espécie de parceria, talvez? Não seria possível trabalhar junto aos governos estaduais em busca dessa liberação?

Estamos aproximando tanto que temos o TBT em parceria com a CBC por mais de três anos e em 2010 transformamos em sulamericano, com a vitória do Minas Tênis. Além do nosso novo regulamento de 2011, onde consta parte das nossas anuidades aos Clubes para que os atletas estejam Confederados e Federados. Mas para conseguir abrir um clube, principalmente em SP, para utilizar seus equipamentos, fica cada dia mais difícil. Uma pena, e os governos poderiam mudar isso. Basta, quando der isenção, cobrar contrapartida.

A CBT apóia algum projeto social no Brasil? Você conhece o projeto “Tênis na Lagoa”, de Alexandre Borges no Rio de Janeiro? Como a CBT atua em projetos como esse?

Sim, nós até o ano passado apoiávamos em nossos projetos mais de 8.000 crianças em vários estados. A nossa verba para projeto comunitário ainda é muito pequena, mas continuamos atendendo em seis estados. Quanto ao Tênis na Lagoa, já ouvi falar, mas pessoalmente não conheço. Parabéns a todos os que conseguem fazer seus projetos, e são muitos no Brasil. Sabemos das dificuldades e no que for possível vamos ajudando aos poucos.

Se alguém tiver uma idéia semelhante à de Alexandre, pode procurar a CBT?

Olha, podem cadastrar os projetos e todos os meninos poderão jogar eventos CBT sem pagar taxa e inscrição, pois a verba para apoiar projetos já estamos utilizando integralmente nos projetos que citei.

A CBT não poderia atuar como intermediária entre os proponentes dos projetos sociais e o governo, ajudando na obtenção de algum recurso, agilização da burocracia, etc.?

Os mesmos poderiam procurar as federações de seus estados, que todas poderiam ajudar. Normalmente os contatos ficam mais fáceis regionalmente, e a CBT pode ser chamada quando necessitar de pressão nacional. Ficamos sempre à disposição quando somos chamados.

Como a CBT trabalha nas divisões de base? Há algum projeto que ajude a garimpar meninos com talento e potencial ou isso ainda fica nas mãos dos treinadores e academias? Há chance de vermos novos Gugas surgindo no futuro?

A CBT investe mais de R$ 2.000.000,00 por ano no Infanto Juvenil, entre viagens, eventos e apoio a centros que já tenham jogadores se destacando. Basta verificar a nossa situação. Temos jogador esta semana de 14 anos fazendo seu primeiro ponto na ATP. Tínhamos ano passado o número 1 sulamericano de 16 anos e 1 do mundo de 18 anos. Este ano já temos um menino em oitavo no Ranking ITF, e por aí vai. Acredito muito nesta meninada que está chegando. O Ranking da ATP já demonstra a situação do Brasil. Somos um dos países com mais jogadores ranqueados, com sete jogadores de simples e duplas entre os 100 do mundo, e muitos entre os 400. E muitos jovens chegando. Exemplo: o resultado do Camilo esta semana. Agora, quanto a termos mais um Guga, vai depender de cada um, vamos ter muitos entre os 100, dai a ter um Guga fica pra cada um. Tanto que o Bellucci hoje já é o segundo jogador da história do Brasil com o 21o na ATP em 2010.

Sim, o talento de um Guga nasce em cada um, é verdade, mas um trabalho de incentivo e garimpagem nas bases precisa ser feito, o que você disse que a CBT faz. Minha pergunta é: com tantos jovens surgindo fortes, por que apenas raríssimos se destacam quando vão começando a se aproximar da fase adulta? Onde poderia estar pelo caminho o problema que os impediria de se tornar melhores profissionais de tênis?

Nos eventos G3 e depois nos G2 e GA fazemos essa garimpagem, através do ranking. Se estão bem no ranking, viajam para eventos de graça na equipe CBT, como Gira Cosat e Européia, além dos Grand Slams. Sem contar o acompanhamento técnico do Departamento comandado pelo Patricio Arnold. Alem disso, os calendários de CNIPs, Futures e Challengers já estão dando mais facilidades pro período que chamamos de pré-profissional, ou seja, a transição do juvenil para o profissional. Melhoramos muito e já temos vários resultados. Basta verificar o ranking da ATP.

Pra encerrar, você pode usar este espaço à vontade para mandar seu recado aos fãs do tênis.

Quero agradecer o espaço e te parabenizar por estar entrando nesta empreitada. Nós na CBT só queremos trabalhar para desenvolver o nosso esporte. Podem acreditar nisso, podemos errar, mas nunca com dolo ou intenção. Queremos acertar e estamos trabalhando sério e profissionalmente. Estamos com credibilidade e já com bons resultados. A cada dia estaremos buscando mais resultado. De forma profissional. Trabalhamos como uma empresa privada, com metas, transparência e gestão forte. Grande abraço a todos e acreditem no Tênis Brasileiro.
É isso, pessoal. Espero que em breve eu possa postar novas entrevistas aqui. Comentem à vontade. E obrigado mais uma vez ao Jorge Lacerda pelo tempo que me dispensou.

Um comentário:

  1. Bela entrevista, parabéns!

    Só achei ele muito político, criticando o PSDB e elogiando o Lula. Aquela saída dele na sua pergunta sobre a declaração do ex-presidente foi bem partidária!

    Mas nada a acrescentar na entrevista! Ótima!

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