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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Até aqui tudo bem...

Quando o jogo de ontem contra Ivan Navarro começou parecia que após a vitória sobre Verdasco, Bellucci havia voltado a ser o tenista das últimas semanas. Só com o passar dos games é que fomos perceber que não era bem assim e no final acabou tudo bem. Foi preciso um péssimo início de jogo e ser humilhado no primeiro set, para, então, o brasileiro conseguir uma convincente virada e avançar às quartas de final do torneio de Acapulco.

O jogo começou complicado para Bellucci. O ritmo de jogo alucinante e acelerado – mesmo no saibro – do espanhol pareceu desnortear um pouco o tenista paulista. Ele não achou um bom ritmo nas devoluções e se incomodou demais com os voleios e ataques ininterruptos do compatriota de Rafael Nadal. Resultado: 6/1 para o europeu no primeiro set.

No segundo set, porém, as coisas se acalmaram e a aguardada quebra parecia questão de tempo. Quando sacava, Thomaz confirmava o serviço com bastante facilidade, o que já não acontecia mais com seu adversário. Foi então que surgiu o grande mérito do paulista no jogo de ontem: a paciência. Com muita calma, o que não é muito comum para ele, Bellucci soube esperar o momento certo para “dar o bote” e quebrar o adversário, fechando a parcial em 6/4.

No terceiro set as coisas ficaram ainda mais fáceis, com o espanhol mais cansado e com Bellucci acertando belas passadas. Com uma quebra no oitavo game, o brasileiro abriu a vantagem que precisava e bastou confirmar o serviço em seguida para vencer e avançar no torneio.

De pontos positivos podemos destacar a paciência de Bellucci para buscar o resultado, a calma para encontrar uma solução para vencer depois de perder de forma humilhante o primeiro set e o excelente serviço. De pontos negativos, o de sempre: Thomaz ainda se posiciona mal em quadra após algumas devoluções e angula pouco os golpes nas trocas mais longas. E nem é preciso comentar os voleios... Mas Larri dará um jeito nisso, tenho certeza.

Até aqui tudo bem. As vitórias estão vindo e o brasileiro tem jogado bem. Ontem, à exceção do primeiro set, ele fez uma ótima partida. Fico feliz de ver que as “voadas” estão diminuindo muito e que sua consistência vem aumentando demais do fundo da quadra. Méritos para Larri nisso. Acredito na parceria, como já disse aqui algumas vezes, mas é preciso ter paciência, o que também já falei outras muitas vezes. É só esperar e dar tempo ao tempo. Até lá, só nos resta torcer para o brasileiro, que pode sair desse torneio na 32ª posição do ranking, se qualificando para ser cabeça de chave em Miami e Indian Wells. Vamos!

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Será que agora vai?

Não vi o jogo de Thomaz Bellucci ontem, portanto seria leviano falar sobre a partida em si, mas fiquei muito feliz com o surpreendente resultado. Não tanto pela vitória, mas pelo placar largo e tranquilo. É claro que o fato de ter vencido pela primeira vez na carreira um tenista top ten é extremamente relevante e importante, mas do jeito que a coisa vinha se encaminhando para o brasileiro nos últimos jogos, perdendo de tenistas sem a menor expressão, uma vitória com autoridade sobre o número nove do mundo é muito, muito significativa.

Alexandre Cossenza, do blog Saque e Voleio, já havia dito na segunda-feira que o fato de jogar pela primeira vez no ano sem a obrigação de vencer poderia ser algo a favor de Bellucci. E acho que realmente foi. Sem a pressão, que leva o peso de sua raquete para uns dez quilos e sua cabeça para o fundo do poço, Thomaz jogou bem, sacou bem e se manteve firme para não dar as famosas viajadas que o tiram completamente do jogo, às vezes por tempo demais. Com somente a partida em mente ficou mais fácil manter a concentração e se preocupar apenas com o que acontecia em quadra, e não com o que o povo brasileiro iria pensar no final, já que perder para o nono colocado do ranking mundial não é vergonha alguma. Seja como for, deu certo e o brasileiro conseguiu uma excelente vitória, daquelas para dar moral e confiança.

Falta agora uma boa sequência para que a torcida brasileira deposite mais esperanças em seu melhor tenista. Vitórias isoladas não o tornarão digno de apostas e expectativas por parte da torcida. E esse ainda é seu maior problema: não conseguir bons resultados seguidos, perdendo para tenistas muito abaixo de seu ranking e nível técnico.

Acho que essa semana de treinos ininterruptos e intensivos, além do contato ainda mais próximo e prolongado com Larri Passos o ajudaram a colocar as coisas no lugar em sua cabeça. Pelo menos temporariamente. Vamos ver por quanto tempo a coisa vai ficar assim. Tenistas que conhecem Larri garantem que ele é capaz de dar jeito na mente do jovem tenista. Esperamos que sim. Muito treino, sorte, coragem e luta aos dois, eles vão precisar.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Ídolo ou não, lá vai ele!

Os recentes fracassos – se é que podemos usar este termo tão pesado – de nosso tenista número um, Thomaz Bellucci, me fizeram voltar a pensar no que já escrevi antes sobre a pressão que o paulista sofre para ser um ídolo no esporte. Olha, quanto mais penso nisso, menos tendo a concordar com o que parece ser a opinião da maioria, isto é, não acho que devamos cobrar de Thomaz que ele seja um ídolo, top ten ou qualquer coisa do tipo. Veja meus argumentos.

Em primeiro lugar, ser um ídolo é algo muito diferente e maior do que ser um grande atleta, com bons resultados. Quantos atletas brasileiros têm o respeito e a admiração de seu povo como o tem o grande Zico? E ele não carrega no currículo a metade das conquistas de Pelé, que é muito mais respeitado pelo que fez do que de fato pelo que é. Michael Schumacher possui sete títulos mundiais, mas em quase todas as eleições de revistas especializadas é de Ayrton Senna o título de maior de todos os tempos, mesmo tendo conquistado menos da metade dos títulos do alemão. Voltando ao tênis, o incomparável Guga se tornou uma lenda no esporte aqui no Brasil. Ele é respeitado e admirado no mundo inteiro, idolatrado pelos tenistas tupiniquins e objeto de verdadeira adoração do seu povo. Isso sendo “apenas” um jogador de tênis, esporte de nenhuma tradição por aqui. Nos EUA, Sampras é o tenista de maiores conquistas no esporte, seguido por Agassi. Em quadra, o primeiro era – pelo menos em minha opinião – bastante superior ao segundo, mais genial e dono de maiores recursos, mas o marido de Steffi Graf é um ídolo de maior expressão, mesmo tendo se envolvido em várias confusões e polêmicas ao longo da carreira. Sampras é mais respeitado tecnicamente; Agassi o é simplesmente por ser Agassi. Se formos analisar o campo das artes isso fica ainda pior. Quantos e quantos artistas sem muito talento se tornam ou se tornaram verdadeiros ícones em suas gerações, ao passo que alguns talentosíssimos acabaram jogados ao ostracismo? A vida é repleta desses exemplos, é só prestar atenção. E é por causa disso tudo que digo, sem medo de me achar precipitado, que Thomaz Bellucci nunca será um ídolo de expressão nacional, mesmo que se torne um dia o número um do mundo. Por quê? Fácil: porque ele não tem aquele “algo mais” que o leve até lá. Não estou falando de seu jogo, da parte técnica, estou falando dele, do próprio Thomaz. Ser um ídolo é algo que não se tem muita escolha, ou você é ou você não é. Quantos fãs tem Kim Clijsters e quantos tem Justine Henin? Qual das duas joga mais tênis? O carisma, a aura, a sensibilidade natural para se colocar, se comunicar e ser compreendido sem esforço nascem com a pessoa, não se ensina em academias ou centros de treinamento. Bellucci não tem isso e nem precisa ter. O problema não é ele, mas sim o povo brasileiro, que quer lhe dar características que não são possíveis de serem adquiridas.

O que acho pior nessa história toda é que parece que ele quer ter isso para poder responder à pressão que sofre. Bellucci, meu filho, para com isso! Deixa disso! Sai dessa! Você não é o Guga – e isso não é, nem de longe, uma ofensa ou crítica, ok? – e nem precisa ser! Você tem que ser você mesmo e ir em frente, jogando seu tênis e buscando evoluir sempre. O povo que se vire pra entender que você é assim, mais sisudo, introspectivo e caladão mesmo. Nelson Piquet foi tricampeão e gênio nas pistas sem se tornar um décimo do ídolo que Senna é. Relaxa. Vai buscar o que é seu na sua profissão e pronto, ok?

O outro lado da questão é o aspecto técnico. Aí, sim, a coisa complica bem mais. O brasileiro vem jogando mal – pelo menos neste início de temporada – e não apresenta a postura em quadra que se espera dele ou de qualquer um que se candidate a top ten. Todo atleta, ídolo ou não, deve entrar em uma partida ou disputa “com a faca entre os dentes”. No tênis, onde o jogo depende só de você, onde você não tem outros companheiros para te ajudar, o jogador precisa estar sempre no limite. Bellucci, no momento, não parece estar. Sua capacidade de “voar” durante os jogos e se abater com isso é, em minha opinião, o que mais lhe atrapalha, junto, é claro, com a pressão que carrega nas costas – ou na raquete. Esta tem pesado uns dez quilos, neste início de ano. Mas parte disso é culpa dele. Graças ao ótimo fim de temporada no ano passado, Thomaz começou o ano dizendo que ia buscar o top ten, juntando-se a Larri Passos para atingir este objetivo. O povo brasileiro criou uma expectativa absurda, como se o ex-técnico de Guga fosse um mago e o tênis um esporte fácil. O processo de adaptação dos dois pode levar uma temporada inteira para acontecer. Larri modificou tudo que Bellucci entendia sobre seu próprio jogo. Não é de uma hora para outra que se assimila isso, jogando dez anos anteriores de um estilo no lixo. É claro que o paulista vai sentir dificuldade de adaptação, óbvio que vai. É injusto reclamar dele agora. Nesse aspecto, pelo menos, é. O que não pode acontecer – e tem acontecido – são as “voadas”. Thomaz precisa de mais poder mental, de mais concentração e, principalmente, capacidade de assimilar seus erros, deixar o ponto para trás e ir em busca do próximo. Remoer o que passou diminui sua atitude/coragem em quadra, fazendo o adversário crescer, o que torna tudo muito mais difícil. Lembro-me de Fernando Meligeni, que era – e ainda é – amado pelos brasileiros, mesmo sendo argentino de nascimento. O motivo disso? O que fazia em quadra. Não era um gênio, mas doava a vida a cada ponto, com orgulho estampado no rosto de estar ali. Se Bellucci chegar nesse nível fico satisfeito. Pode morrer sem ganhar mais um título, mas fico satisfeitíssimo.

O mais importante para os brasileiros que acompanham Thomaz agora é ter ciência de que chegar a ser o número 21 do mundo pode ser o ápice de sua carreira. E, se assim for, temos que enaltecê-lo do mesmo jeito. Se um dia a seleção de futebol da Venezuela se classificar para uma copa do mundo e for às oitavas de final o país para, vira feriado, os atletas ganham estátuas, medalhas e tudo que tiver direito. O futebol lá é tão popular quanto o tênis aqui. Temos que respeitar alguém que consegue chegar ao top 30, pessoal. É uma obrigação nossa.

Fico imaginando se Andy Murray fosse brasileiro. Coitado do britânico. Se lá a coisa já é feia pra ele, imagina por aqui...

Vamos dar tempo a Bellucci, pois tenho certeza que não existe um brasileiro que queira mais que ele se torne um gigante em seu esporte do que ele próprio. E só ele pode correr atrás disso. Aumentar a pressão sobre ele só piora as coisas. Vamos ter paciência com o rapaz, pois, ídolo ou não, ele vai em busca do que todos – inclusive ele – querem e esperam.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O calvário de Bellucci


Muito se fala de Bellucci e de suas atuações, resultados, (falta de) golpes e até mesmo do sangue em suas veias. Depois de sua derrota para o número duzentos e quarenta e um do mundo, o melhor tenista brasileiro da atualidade sofreu milhares de críticas, umas mais outras menos inflamadas, mas todas com seu lado verdadeiro, seu lado exagerado e seu lado, digamos, mentiroso. Vou dizer o que penso...

Hoje mesmo escrevi – e vou repetir aqui – sobre a derrota de Thomaz para Jan Hernych:

O pupilo de Larri ainda precisa melhorar muito seu jogo e, principalmente, sua cabeça para evoluir no tênis e, consequentemente, subir no ranking. Primeiramente, acho que parte dos problemas do brasileiro são as seguidas maratonas que enfrenta. Não me lembro de um jogo seu que tivesse acabado rápido. Ele passa muito tempo em quadra, o que exige demais de mente e corpo. Em um torneio de Grand Slam – onde a pressão é muito maior – jogado sob um sol brutal como o de Melbourne, isso faz muita diferença. É muito difícil conseguir manter dia após dia a concentração alta e o corpo sadio disputando jogos de quatro a cinco horas seguidamente. Devido a isso e a seu jogo inconstante, não vejo sua eliminação como algo precoce, infelizmente. Bellucci ainda não encontrou algo que se possa chamar de regularidade, por isso não considero surpresa que ele seja eliminado em qualquer rodada de qualquer torneio deste porte. Acho que com uma boa sequência em torneios expressivos, chegando às semifinais e até mesmo finais de ATP 1000, poderemos começar a achar prematura sua eliminação em segundas rodadas de Grand Slam. Até lá, tudo que posso achar é que Bellucci é uma promessa do nosso tênis. Uma promessa que já está passando da hora de se cumprir, mas só uma promessa, infelizmente.

Falando especificamente sobre a derrota mencionada acima, ratifico o que falei: acho, mesmo, que Bellucci ainda não “engrenou” e que ainda não confirmou o que o Brasil dele espera. Agora, isso não quer dizer que ele chegou ao top trinta por acaso ou que não mereça estar lá. Ninguém chega lá por acaso. Caroline Wozniacki lidera a WTA e nunca ganhou um torneio de Grand Slam. Justine Henin tem sete títulos desse porte e caiu na terceira rodada. A consistência, freqüência de bons resultados e solidez do jogo fazem um tenista subir e ficar no topo do ranking. Thomaz chegou aonde chegou assim. O problema foi que chegou lá com torneios de pequeno e médio porte. Para subir mais vai precisar de torneios de grande e enorme porte, leia-se master 1000 e Grand Slam. Aí é que acho que a coisa complica para o nosso número um.

Bellucci não tem a tal consistência necessária pra se manter no alto, muito menos a solidez do jogo de um top 10, por exemplo. Esta última ele está buscando com Larri Passos. Acho, honestamente, que é possível que ele melhore muito, a ponto de subir, pelo menos, vinte posições no ranking. Isso, para um país que não tem investimentos ou tradição no esporte é um feito hercúleo. Ser o número trinta do mundo já o é, imagine dez ou quinze? Nunca nos esqueçamos que ele já foi o número vinte e um do mundo. O que falta, então, para subir mais? O que creio que falta muito a Thomaz é cabeça. Não o vejo forte mentalmente para subir muito, a não ser, é claro, que isso mude. Outra coisa que ele precisa melhorar rapidamente é o preparo físico. Bellucci não agüenta uma rotina de jogos muito duros. Ainda acho algumas coisas que me arrisco a dizer:

• Ele deve tentar encurtar mais os pontos e, consequentemente, os jogos. Bellucci não joga, ele disputa batalhas. São sempre três a quatro horas de jogo. Não é para qualquer um passar um ano inteiro nesse ritmo, mesmo com vinte e três anos;

• Ele deve ousar mais, subir mais à rede e agredir mais os adversários. Bellucci tem uma ótima direita, pode buscar bolas mais anguladas e fundas. Isso se resolve com treino, não é obra de mágicos. Basta que ele vá atrás dessa evolução em seu jogo;

• Ele deve parar de ler qualquer coisa que a imprensa brasileira publique sobre ele, inclusive eu. A pressão que se faz para que ele seja um novo Guga é anormal e injusta. É óbvio que ele não será um novo Guga. Não porque não tenha o mesmo talento ou carisma, mas pelo simples fato de que as pessoas são diferentes. Agassi e Sampras são completamente antagônicos, tanto quanto atletas como quanto pessoas, e ambos foram ídolos em seu país. Cada um do seu modo. O Brasil tem que parar de exigir de Thomaz algo que ele não tem a menor condição de dar. Tem, pois, que exigir dele o máximo que ele pode dar. Se isso for ser o número vinte e um do mundo, que assim o seja.

Agora, o que me dá a impressão é que o povo implica com ele porque não vê nele o brio que se espera de um atleta de seu nível. Lembro-me de quando Guga começou sua ascensão. Quantas piadas não se fazia sobre as freqüentes eliminações em quadras rápidas do maior tenista da história deste país? Ironia do destino quando quis que no mais rápido de todos os pisos esse mesmo Guga se tornasse o número um do mundo. Sua evolução nesse ambiente era absurda, mas sua contusão nos privou do prazer de vê-lo jogar e, creio eu, ganhar mais uns três torneios de Grand Slam. Fato é que Bellucci precisa melhorar. Nadal precisa melhorar. Federer precisa melhorar. Guga precisava melhorar. Todos precisam melhorar, por que com Bellucci seria diferente? Aí é que volto à questão do brio. Thomaz parece sempre muito apático e ausente do jogo. Raros são os momentos que o vemos brigar e demonstrar “tesão” por estar ali. O povo brasileiro não gosta disso. Veja o exemplo de Ayrton Senna. Ele foi um ídolo muito maior do que Nelson Piquet, que também é tricampeão e brilhante nas pistas. Sem entrar no mérito do talento, Senna tinha mais carisma – e isso não se aprende, se tem – e falava com o povo brasileiro como se fosse um deles. A alegria de Senna ao pilotar, sua emoção em vencer e o prazer que tinha em dizer que queria trazer alegria ao povo brasileiro o fez ser um dos maiores ídolos do nosso esporte de todos os tempos. Talvez até mesmo o maior de todos. Mesmo que Piquet tivesse o dobro de títulos, não teria o amor do nosso povo como Ayrton tinha e tem até hoje. O próprio Federer sofre dessa implicância. Muitos o acham frio e distante demais, dizem que ele parece jogar como se fizesse um favor a alguém, que não se liga no jogo e tal. Nadal, que sua como se pisasse no sol, corre, se joga e rasga a roupa se for preciso é amado neste país por muitos mais do que o suíço. Bom, pelo menos no domínio de pessoas que conheço este é um fato. O que quero dizer é que falta a Bellucci essa “coisa” com o povo, e isso se conquista com o tempo, mas também com vitórias, regularidade e luta, muita luta. Ficar quatro horas na quadra não significa, necessariamente, lutar. Talvez, se houvesse de fato luta o jogo demorasse duas horas e o resultado lhe seria favorável. Tempo em quadra não quer dizer que deu seu máximo e vice-versa. Nadal e Federer que o digam.

Outra coisa que atrapalhou demais a vida de Bellucci para esta temporada foi sua declaração no fim do ano de dois mil e dez, quando criticou todos os técnicos brasileiros, à exceção de Larri Passos e de João Zwetsch, seu técnico à época. Quase todos os profissionais da área, comentaristas esportivos e boa parte da imprensa criaram, naquele momento, uma rusga com nosso número um. E pode ter sido fruto dessa mágoa a dura crítica de Osvaldo Maraucci ao brasileiro após a eliminação no Australian Open. Pode ser, não tenho condições de afirmar. Seja qual for o motivo, não acho que ele tenha falado uma totalidade de inverdades, mas também não acho que o tom deva ser esse. A crítica foi, claramente, agressiva e destrutiva. O que Bellucci menos precisa agora é disso. Críticas são ótimas, mas quando visam a melhora, a evolução.

Para concluir e resumir, o que acho é que Thomaz tem potencial para ser mais do que é, mas não acho que tenha condições de vir a ser um número um, mas também nem acho que precise sê-lo. O que acho que ele tem que fazer é aprimorar seu jogo, técnica e fisicamente, e aumentar sua capacidade mental (esta nem sempre é possível). Isso o levará a melhores resultados em grandes torneios, o que o fará subir no ranking. Mantendo uma constância de resultados, a credibilidade virá e a paz também. Nesse momento ele deixará de ser promessa e será realidade. Mas só com a regularidade. Sem ela, nada feito.

Nenhuma descoberta sensacional isso que eu disse, mas parece ainda não estar claro para alguns. Só não acho que devamos parar de torcer e apoiar o brasileiro, tampouco de criticar, mas apenas quando a crítica for sadia, sua evolução e não querendo afundá-lo ainda mais mentalmente. Bellucci, meu filho, desligue a TV e a internet, não compre jornal e vá treinar. Se você subir, a galera te perdoa rapidinho. Brasileiro tem memória curta. Liga não...

Só falo daquilo que vi... (2ª Rodada Australian Open - parte 2)

Lá veio a segunda noite da segunda rodada e com ela um longo feriadão no Rio de Janeiro. Devido a isso, perdi muito do que queria ter visto neste Australian Open – como o jogo da Clijsters, por exemplo –, mas ainda deu pra ver algumas coisas interessantes acontecendo. Vamos a elas.


A primeira coisa que vi na TV foi o treino de Rafael Nadal com um dos boleiros de Melbourne (que roupa o americano escolheu, heim?). Como de costume, o touro espanhol não entrou para brincadeiras e passeou em quadra, não dando a menor chance pro adversário – que ainda deve estar sem acreditar que conseguiu quebrar uma vez o saque do número um do mundo – e conquistando sete aces, trinta e seis winners e quase o dobro do total de pontos de Ryan Sweeting (noventa contra cinqüenta e dois). De positivo para os fãs de Nadal, a disposição, concentração e responsabilidade de sempre. De negativo, muitas duplas faltas e erros não forçados. É verdade que o miura forçou bem mais o jogo do que tradicionalmente faz, mas não o vejo em sua melhor forma ainda neste torneio. Mesmo assim, duvido muito que caia antes das semifinais.

O outro jogo que vi – e gostei – foi o de Marcos Baghdatis contra Juan Martin Del Potro. Belo jogo, mas poderia ter sido ainda melhor se o primeiro acertasse seus primeiros serviços com mais freqüência (foram pífios quarenta e sete por cento de acerto) e o segundo fosse ao menos uma sombra do vencedor do US Open de dois mil e nove. Os números não mentem, vejamos: o ciprioata venceu oitenta e oito por cento dos pontos em que disputou com o primeiro serviço; o argentino cometeu quarenta e um erros não forçados. Sem contar o fato de que aquele forehand arrasador que acabou com Federer em Nova Iorque não existe mais, muito menos a confiança para tentá-los com mais freqüência, já que a maioria deles sai no fundo da quadra. Vale destacar a garra usual dos dois tenistas que, nem que seja mais por isso do que pela exuberante técnica, proporcionaram uma agradabilíssima partida de tênis. Baghdatis avança, mas se não melhorar o aproveitamento de primeiro saque não terá como ir muito mais longe no torneio.


Infelizmente foi só isso que vi, mas vamos falar um pouco dos números, começando por Kim Clijsters. A belga humilhou mais uma vez. Sessenta e três pontos a trinta e nove; vinte e um winners a seis. Ruim mesmo foi o número de erros não forçados: vinte e quatro. Se não fosse por eles, provavelmente seria outra bicicleta da número três do mundo. E ela segue no torneio, em minha opinião, favoritíssima ao título.

Jankovic deu adeus e volta pra casa. Honestamente, não entendo muito a sérvia. Tem horas que me dá a nítida sensação de que ela só entra em quadra pra mostrar a beleza que acha que tem. Não vejo, nem nunca vi, na ex número um do mundo motivação e jogo que a fizesse estar no topo do ranking. Que fase vive a WTA... Ao contrário do que disseram, não acho surpresa sua eliminação precoce. Talvez se ela parar de se preocupar com as pernas, o cabelo e as unhas durante as partidas ela volte ao topo. Até lá, será sempre assim.

Fora a eliminação de Jankovic e o susto no primeiro set do jogo de Zvonareva – que ainda vai se ajustando –, de resto ficou tudo normal: Murray cozinhou, cozinhou e levou fácil: três a zero sem qualquer ameaça em um dos sets; e a maioria dos favoritos venceu seus jogos. A lamentar, a precoce eliminação de Llodra, a desistência de Nalbandian e a eliminação do brasileiro Thomaz Bellucci.

O pupilo de Larri ainda precisa melhorar muito seu jogo e, principalmente, sua cabeça para evoluir no tênis e, consequentemente, subir no ranking. Primeiramente, acho que parte dos problemas do brasileiro são as seguidas maratonas que enfrenta. Não me lembro de um jogo seu que tivesse acabado rápido. Ele passa muito tempo em quadra, o que exige demais de mente e corpo. Em um torneio de Grand Slam – onde a pressão é muito maior – jogado sob um sol brutal como o de Melbourne, isso faz muita diferença. É muito difícil conseguir manter dia após dia a concentração alta e o corpo sadio disputando jogos de quatro a cinco horas seguidamente. Devido a isso e a seu jogo inconstante, não vejo sua eliminação como algo precoce, infelizmente. Bellucci ainda não encontrou algo que se possa chamar de regularidade, por isso não considero surpresa que ele seja eliminado em qualquer rodada de qualquer torneio deste porte. Acho que com uma boa sequência em torneios expressivos, chegando às semifinais e até mesmo finais de ATP 1000, poderemos começar a achar prematura sua eliminação em segundas rodadas de Grand Slam. Até lá, tudo que posso achar é que Bellucci é uma promessa do nosso tênis. Uma promessa que já está passando da hora de se cumprir, mas só uma promessa, infelizmente.

Entre abandonos e eliminações, o Australian Open continua e o cerco vai começando a apertar. A semana decisiva está chegando e os verdadeiros desafios também...

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Só falo daquilo que vi... (1ª Rodada Australian Open – parte 2)


E lá se foi mais uma noite de Australian Open. E mais uma vez não pude ver tudo aquilo que poderia e/ou gostaria porque preciso acordar muito cedo pra trabalhar. Sendo assim, só foi possível assistir a dois jogos: as estréias de Zvonareva e Nadal.

A russa número dois do mundo não teve qualquer dificuldade para passar pela austríaca Sybille Bammer, menos pelo seu bom jogo do que pela pífia performance da adversária. Zvonareva ficou o tempo todo no fundo da quadra se defendendo e esperando o erro que chegaria em breve. E sempre chegava. A vice líder do ranking só precisou ir levando a partida dessa forma morosa e esperar o jogo acabar para vencer com extrema facilidade. A impotência de sua adversária era tamanha que, dos trinta e dois pontos que fez ao todo no jogo, mais da metade (17) vieram de erros não forçados da russa e apenas cinco vieram de winners. Não precisa dizer mais muita coisa. Digno de nota mesmo só o fato de que Zvonareva soube conduzir o jogo dentro do que foi preciso para vencer. Vamos ver se em um embate mais equilibrado, com uma adversária de maior qualidade ela vai agredir mais ou se vai ficar só se defendendo e esperando o erro. Não creio que vá. Não foi assim que chegou à vice liderança do ranking. Outra coisa que vai precisar fazer para ter vida longa no torneio é calibrar mais a mão, pois em um jogo tão fácil como o de ontem ela não poderia ter se dado ao luxo de cometer tantos erros (além dos dezessete não forçados, foram cinco duplas faltas).


A última coisa que vi antes de dormir foi Rafael Nadal se aquecendo na quadra principal. Quando ele soube que seu adversário não iria jogar, ele dispensou seu ajudante de aquecimento e foi pra casa com mais uma vitória no currículo. Brincadeiras à parte, Daniel não entrou em quadra. E, honestamente, sem querer julgar, acusar ou condenar, fiquei com a pulga atrás da orelha com essa dor no joelho. Em momento algum desde o sorteio da chave se falou em problemas físicos do brasileiro. Após o jogo, o gaúcho disse que sentiu a lesão há dois dias durante um treinamento e por isso não conseguia se movimentar bem em quadra. Seja como for, o primeiro set foi horroroso e Daniel dava mais aro e isolava mais a bola do que eu nos meus sábados. Sua concentração parecia ter ficado no Brasil, de tão desligado que aparentava estar do jogo. Não sei mesmo o que se passou na cabeça dele, mas não parecia ser só o joelho. O problema, pelo menos no primeiro set, não pareceu ser físico, mas técnico. Mas independente de qualquer coisa, não temos o direito de duvidar da palavra de um atleta profissional e que já provou ser bastante correto. Mas que deu pra estranhar, deu...

Gostaria apenas de ressaltar o baixo rendimento de Nadal no jogo. Em uma partida tão curta e tão fácil o número um do mundo não poderia ter cometido dez erros não forçados e três duplas faltas. A não ser que já tivesse sentido que estava treinando e aproveitou para calibrar a mão, ousando e, consequentemente, errando mais. Se não foi por esse motivo, é bom o espanhol abrir o olho.


E a Kim Clijsters, heim? Mostrou para Safina o que é ser número um de verdade. E só cometeu quatro erros não forçados durante todo o jogo. Quatro. Além de nenhuma dupla falta e dezessete winners. Ao todo foram cinqüenta e um pontos contra dezesseis da russa. Essa vai demorar pra descer, vai ter que ajudar com vodka. Segura a belga!

Pra encerrar: não vi o jogo do Bellucci, mas às vezes tenho a impressão de que ele é o tenista do circuito que mais ama o que faz. Sempre que possível, estende o jogo até onde não dá mais e só então decide jogar e ganhar. Gosta muito de ficar na quadra esse rapaz...