domingo, 5 de junho de 2011

Eu (achava que) já sabia

Teria sido maravilhoso que tudo tivesse acontecido conforme abaixo, mas não aconteceu. Roger Federer encontrou um Rafael Nadal inspirado. Acho que Deus pode ter ficado na dúvida de qual dos dois ajudar, já que ambos estão na mesma categoria. De modos diferentes, mas estão. São dois foras de série, jogadores incríveis e que demorará muito tempo para vermos de novo.

Continuo pensando tudo que escrevi abaixo. Serve de reflexão para os que condenam e atacam Federer e até mesmo para aqueles que dizem que Nadal é só um devolvedor de bolas sem virtudes. Ledo engano. Ele não é genial tecnicamente como Federer, mas joga com raça e inteligência demais, taticamente sempre perfeito.

Hoje o grande vencedor foi o tênis. Que partida! Privilégio poder assistir algo assim.

O que me deixa feliz é poder dizer “parabéns” a Nadal praticamente com as mesmas palavras que usaria para Federer.

Parabéns ao espanhol, parabéns ao maior gênio do saibro que o mundo já viu. Parabéns a Rafael Nadal e a todos aqueles que nunca duvidaram dele e de seu incrível talento. Parabéns ao tênis por ter um ser humano como esse competindo e mostrando que não há limites.

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A história do mundo se caracteriza por provar, em várias situações, que os grandes e incontestáveis homens e mulheres que por este planeta já passaram não devem ser desafiados. Ao longo de várias eras, um questionado Deus provou que os especiais e fora das características tidas como padrão que Ele envia ao mundo são, de fato, Seus protegidos. No esporte a coisa nunca funcionou de forma diferente. E consigo me lembrar rapidamente de dois exemplos bem recentes.

No futebol, na copa do mundo de dois mil e dois, o maior artilheiro da história das copas entrava em campo sendo extremamente questionado, vítima de chacotas e infinitas interrogações. E me incluo nesse grupo de pessoas, quero deixar bem claro. Ainda se recuperando de gravíssimas lesões, bem acima do peso ideal, seria ele decisivo, ou até mesmo importante, na campanha de sua seleção nacional? A competição mostrou que sim. Não só ele fez o gol do título, como também retificou a marca que ninguém ainda conseguiu bater. Ele é o artilheiro de todas as copas, ele é o fenômeno, ele é Ronaldo.

No tênis, um ex-campeão, maior vencedor de torneios de nível major da história até aquele momento, questionado, chamado de velho, ouvindo que era hora de se aposentar. Seu ranking era um modesto décimo quinto lugar, já havia outros que o venciam com alguma facilidade. Quando todos achavam que não lhe era mais possível fazer qualquer coisa digna de sua história, ele foi lá e venceu mais um – o último – torneio de Grand Slam e calou o mundo com sua genialidade. Ele confirmava ali que era, até aquele momento, o rei dos majors, o dono de um número de títulos praticamente imbatível dessa categoria de torneios profissionais. Ele é Pete Sampras.

Recentemente o mundo vinha passando por um momento bastante semelhante, novamente no tênis, novamente com um daqueles que deveriam ser inquestionáveis por tudo aquilo que já fizeram. E novamente a genialidade, o talento e o brilhantismo de mais um daqueles que Deus envia para tornar o mundo melhor apareceu e calou todos os ateus do esporte. E com Deus, meus caro, crendo Nele ou não, não se brinca. Não se aponta impunemente o dedo para Sua cara e diz “ei, você não é de nada”, impunemente. E, mais uma vez, Ele decidiu revidar os ataques. E fez ao seu melhor estilo: calmamente, na paz e com glória. Foi apenas mais uma vez na história, mas foi uma das que mais gostei até o momento, pois ela envolve o maior jogador de tênis de todas as eras, ela envolve o vencedor de dezessete torneios major, o homem que bateu a marca quase imbatível de Pete Sampras, ela envolve Roger Federer.

Ao longo de sua carreira o suíço fez coisas e registrou números inacreditáveis, superando quase todos os recordes vigentes em seu esporte. Foi o dono de jogadas que os fãs de tênis jamais esquecerão e fez com a raquete coisas que justificavam reuniões no Paraíso para tentar explicar de onde saíra tamanha genialidade. Porém, o homem que fez os maiores de todos os tempos em sua profissão se curvarem perante ele sem precisar fazer esforço ou pedir por isso, simplesmente porque reconheciam nele um novo rei e alguém que estava alguns degraus acima de seus feitos dentro de quadra, o jogador que fez Maria Ester Bueno dizer que “é inacreditável como o Federer faz as coisas mais incríveis parecerem simples” vinha sendo questionado e sofrendo acusações de que o fim havia chegado e que a hora de se aposentar estava próxima. Como eu disse, não se deve cutucar os preferidos de Deus de forma tão leviana e achar que vai sair ileso. Não mesmo. E foi o que aconteceu. E o palco para registrar a épica virada dos acontecimentos não poderia ser mais perfeito, a arena onde o maior de todos sempre enfrentou suas maiores dificuldades, o lugar onde ele sempre precisou se superar ainda mais para vencer, a casa de seu maior adversário, com uma vitória maiúscula sobre ele, seu maior antagonista, outro gigante e inquestionável do esporte, o espanhol Rafael Nadal.

O momento era o mais ideal possível: o mundo esportivo especializado estava inteiro contra Federer, jogando-o prematuramente na lona da aposentadoria, chamando-o de acabado e decadente, fazendo piadas de suas declarações de que estava vivo e na disputa, além de duvidar de algo que já havia muitas provas de que não era possível duvidar: sua capacidade técnica, genialidade e talento. E assim, como acontecera em tantas outras ocasiões, Deus guardou o melhor para o final, trazendo um de seus melhores enredos às telas da vida e presenteando os fãs deste esporte tão maravilhoso que é o tênis com um lindo momento de muita emoção e arte.

Desde pouco antes do início do torneio de Roland Garros eu dizia que Federer seria o campeão. Ele não vinha de grandes resultados e não jogava o melhor tênis de sua vida, mas eu ainda assim dizia. Eu sentia o momento. Via suas expressões nas derrotas, sentia o brio abalado nas críticas e percebia o tom de “olha bem o que vocês estão dizendo...” nas declarações após as partidas. As chacotas eram inúmeras e se espalhavam na internet. Enquanto isso o gênio se manteve em silêncio. Quando o torneio se iniciou, aí mesmo tive certeza de tudo. Não cometeria o mesmo erro que cometi na época de Ronaldo. A maneira que Federer se comportava em quadra, a maneira que vibrava e disputava cada ponto era diferente de tudo que eu o havia visto fazer nos últimos meses, talvez anos. Os mínimos detalhes estavam ali para quem quisesse ver: a bola mais rápida, o piso um pouco mais duro do que os dos torneios de saibro anteriores – até o vento foi enviado para deixar a quadra “careca” e, consequentemente, ajudar nessa tarefa –, Rafael Nadal um pouco longe de seus melhores momentos, tudo, nas suas maiores sutilezas, indicava a vitória do suíço, preparava o clima para o grand finale. A vitória sobre o trator sérvio foi simplesmente sensacional. Federer venceu o torneio e calou meio mundo do esporte ali. Navratilova, em minha opinião a maior tenista de todos os tempos, que já havia duvidado do maior dos gênios, via de perto sua aula de tênis e o desfile de técnica e golpes que não permitiram a Djokovic, por mais que este tentasse – e tentou muito! –, achar um caminho para a vitória. Os sinais estavam todos ali, era só ver.

A partida contra o sérvio, aliás, me lembrou de algo que ouvi Dácio Campos falar uma vez: “para ganhar de Federer o tenista tem que estar em seu melhor dia e Federer não pode estar no seu, porque o melhor dia de Roger Federer é melhor do que o melhor dia de qualquer tenista”. Não tenho como discordar disso.

Federer viveu em Roland Garros seu momento Joana D’Arc, onde o tribunal era a imprensa e a falta de culpa que deveria assumir compulsoriamente era a de sua decadência. Federer se negou a confessar algo que não fosse verdade, foi para a fogueira e, assim como Joanna, de lá saiu vitorioso. Ela, espiritualmente, ele fisicamente. Mostrou para todo o mundo como se faz um verdadeiro campeão, aqueles que ficam nos livros, não aqueles de um torneio só, mas sim de dezessete. Dezessete. E isso só de nível major. E isso até o momento...

Eu sempre abro os olhos para as coisas de Deus e, como tal, não pude evitar de ver algo que era tão claro: o torneio de Grand Slam preferido da maioria dos fãs de tênis – os mesmos fãs que debochavam de um de seus maiores expoentes –, o mais difícil de ser vencido, a final contra o maior rival e inquestionável dono do título de “maior jogador do saibro de todos os tempos”, a atmosfera de dúvidas que o cercava, as inúmeras adversidades dos últimos meses, tudo isso levava à vitória redentora e épica de Roger Federer. Só não via quem não queria. Eu quis ver. Eu vi. Assim como vi também a chuva que caiu em uma hora crucial da partida, onde o suíço passava por um momento muito ruim, demorou poucos minutos e se foi, nos trazendo um Federer recuperado e muito melhor mental e tecnicamente. Como disse, está tudo aí, é só ver. Ou querer ver...

Nunca escondi e nunca esconderei que sou fã incondicional do suíço. O que ele faz com a raquete é o que me faz ir todo final de semana para a quadra de tênis sonhar que posso fazer igual. É sua postura fora de quadra que me faz acreditar que o mundo tem solução, e sua amizade quase que fraterna com seu maior rival e algoz dentro de quadra que me faz achar que existe uma solução pacífica para as guerras no planeta. Ele é um grande exemplo para mim. Dentro e fora das quadras. Meu primeiro ídolo no tênis foi Boris Becker. Federer o superou de longe. Gustavo Kuerten só não é meu maior ídolo porque, nas quadras, não tem pra ninguém: Roger Federer é o maior de todos os tempos, assim como fora dela nosso querido Guga é imbatível.

Para não alongar ainda mais este texto – poderia falar dias sobre o tênis e os feitos do suíço – vou encerrar dizendo o óbvio: não brinque com os filhos diletos de Deus, creia você Nele ou não. A história está aí para provar isso, é só ter a sensibilidade para ver.

Parabéns ao suíço, parabéns ao maior gênio das raquetes que o mundo já viu. Parabéns a Roger Federer e a todos aqueles que nunca duvidaram dele e de seu incrível talento. Parabéns ao tênis por ter um ser humano como esse competindo e mostrando que não há limites.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Até aqui tudo bem...

Quando o jogo de ontem contra Ivan Navarro começou parecia que após a vitória sobre Verdasco, Bellucci havia voltado a ser o tenista das últimas semanas. Só com o passar dos games é que fomos perceber que não era bem assim e no final acabou tudo bem. Foi preciso um péssimo início de jogo e ser humilhado no primeiro set, para, então, o brasileiro conseguir uma convincente virada e avançar às quartas de final do torneio de Acapulco.

O jogo começou complicado para Bellucci. O ritmo de jogo alucinante e acelerado – mesmo no saibro – do espanhol pareceu desnortear um pouco o tenista paulista. Ele não achou um bom ritmo nas devoluções e se incomodou demais com os voleios e ataques ininterruptos do compatriota de Rafael Nadal. Resultado: 6/1 para o europeu no primeiro set.

No segundo set, porém, as coisas se acalmaram e a aguardada quebra parecia questão de tempo. Quando sacava, Thomaz confirmava o serviço com bastante facilidade, o que já não acontecia mais com seu adversário. Foi então que surgiu o grande mérito do paulista no jogo de ontem: a paciência. Com muita calma, o que não é muito comum para ele, Bellucci soube esperar o momento certo para “dar o bote” e quebrar o adversário, fechando a parcial em 6/4.

No terceiro set as coisas ficaram ainda mais fáceis, com o espanhol mais cansado e com Bellucci acertando belas passadas. Com uma quebra no oitavo game, o brasileiro abriu a vantagem que precisava e bastou confirmar o serviço em seguida para vencer e avançar no torneio.

De pontos positivos podemos destacar a paciência de Bellucci para buscar o resultado, a calma para encontrar uma solução para vencer depois de perder de forma humilhante o primeiro set e o excelente serviço. De pontos negativos, o de sempre: Thomaz ainda se posiciona mal em quadra após algumas devoluções e angula pouco os golpes nas trocas mais longas. E nem é preciso comentar os voleios... Mas Larri dará um jeito nisso, tenho certeza.

Até aqui tudo bem. As vitórias estão vindo e o brasileiro tem jogado bem. Ontem, à exceção do primeiro set, ele fez uma ótima partida. Fico feliz de ver que as “voadas” estão diminuindo muito e que sua consistência vem aumentando demais do fundo da quadra. Méritos para Larri nisso. Acredito na parceria, como já disse aqui algumas vezes, mas é preciso ter paciência, o que também já falei outras muitas vezes. É só esperar e dar tempo ao tempo. Até lá, só nos resta torcer para o brasileiro, que pode sair desse torneio na 32ª posição do ranking, se qualificando para ser cabeça de chave em Miami e Indian Wells. Vamos!

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Será que agora vai?

Não vi o jogo de Thomaz Bellucci ontem, portanto seria leviano falar sobre a partida em si, mas fiquei muito feliz com o surpreendente resultado. Não tanto pela vitória, mas pelo placar largo e tranquilo. É claro que o fato de ter vencido pela primeira vez na carreira um tenista top ten é extremamente relevante e importante, mas do jeito que a coisa vinha se encaminhando para o brasileiro nos últimos jogos, perdendo de tenistas sem a menor expressão, uma vitória com autoridade sobre o número nove do mundo é muito, muito significativa.

Alexandre Cossenza, do blog Saque e Voleio, já havia dito na segunda-feira que o fato de jogar pela primeira vez no ano sem a obrigação de vencer poderia ser algo a favor de Bellucci. E acho que realmente foi. Sem a pressão, que leva o peso de sua raquete para uns dez quilos e sua cabeça para o fundo do poço, Thomaz jogou bem, sacou bem e se manteve firme para não dar as famosas viajadas que o tiram completamente do jogo, às vezes por tempo demais. Com somente a partida em mente ficou mais fácil manter a concentração e se preocupar apenas com o que acontecia em quadra, e não com o que o povo brasileiro iria pensar no final, já que perder para o nono colocado do ranking mundial não é vergonha alguma. Seja como for, deu certo e o brasileiro conseguiu uma excelente vitória, daquelas para dar moral e confiança.

Falta agora uma boa sequência para que a torcida brasileira deposite mais esperanças em seu melhor tenista. Vitórias isoladas não o tornarão digno de apostas e expectativas por parte da torcida. E esse ainda é seu maior problema: não conseguir bons resultados seguidos, perdendo para tenistas muito abaixo de seu ranking e nível técnico.

Acho que essa semana de treinos ininterruptos e intensivos, além do contato ainda mais próximo e prolongado com Larri Passos o ajudaram a colocar as coisas no lugar em sua cabeça. Pelo menos temporariamente. Vamos ver por quanto tempo a coisa vai ficar assim. Tenistas que conhecem Larri garantem que ele é capaz de dar jeito na mente do jovem tenista. Esperamos que sim. Muito treino, sorte, coragem e luta aos dois, eles vão precisar.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Ele é isso tudo mesmo?

Só eu não achei a sensação Milos Raonic esse tenista todo? Claro, ele é bom, mas é de fato tudo isso que andam falando por aí?

Primeiramente, vamos identificar os méritos do jovem canadense de apenas vinte anos:
• Saca demais. Talvez tenha o melhor saque do circuito no momento;
• Bate forte tanto com o forehand quanto com o backhand;
• Voleia muito bem.

Bom, quanto ao saque nem acho que seja necessário comentar. Deixo isso para Verdasco, mas quanto ao resto, vamos lá.

Os golpes de Raonic são muito fortes, as bolas de forehand são realmente muito “pesadas”. O backhand não fica muito atrás. A direita ainda tem como aliada da força os bons ângulos que ele consegue tirar em grande parte do tempo. Quando ataca com precisão, o canadense é fatal.

Sobre o voleio, aí sim acho que ele se destaca bem mais do que a maioria de seus companheiros de circuito. É claro que ainda há muito a evoluir, mas o fato de buscar a rede com freqüência e, na maior parte do tempo, com êxito já me anima bastante. Na era dos brucutus espancadores de bola, dá gosto ver alguém tão forte lá de trás subir à rede corriqueiramente.

Agora aos pontos negativos:
• Agride demais a bola, sempre buscando os winners “na linha”;
• Péssima movimentação, extremamente lento;
• Não tem consistência do fundo da quadra;
• Poucas variações quando a pancadaria não resolve.

"O primeiro ponto negativo acima deve estar no lugar errado, não?", você deve estar pensando. Mas não, não está no lugar errado. Um jogo de tênis é muito mais do que bolas rápidas e pancadaria buscando as linhas. Um jogo de tênis exige paciência, inteligência e calma para saber a exata hora de atacar. Os jogadores número um e número dois do ranking no momento não jogam na base da pancadaria, muito pelo contrário, trabalham o ponto com bolas mais anguladas, com mais spin e menos peso, movimentando o adversário até acharem a brecha para acelerar e buscar o winner. Raonic – e a maioria dos tenistas da atualidade – perde muitos pontos por impaciência, por querer bater sempre. Buscar as linhas é ótimo, Federer faz isso o tempo todo, mas experimenta tirar um pouco do peso e colocar um pouco mais de efeito com ângulos bem fechados pra ver se o nível de acerto não vai subir consideravelmente.

O problema é que a característica que apontei como defeito acima não é culpa do canadense. A tendência no tênis moderno é essa (infelizmente) e não há muito mais o que ele possa fazer, já que se movimenta muito mal – principalmente lateralmente – e é muito inconsistente no fundo da quadra. Trocas de bolas longas o levam ao erro rapidamente. Se o tenista do outro lado tiver paciência e baixar duas ou três bolas, tem grandes chances de ganhar o ponto em erros não forçados. É aí que entra o que eu disse sobre as poucas variações. Por se movimentar mal e estar acostumado a resolver a coisa na base da pancada, Raonic não consegue fugir muito das armadilhas dos slices baixinhos ou de bolas sem muito peso e com muito spin. Ele se complica. Aí tenta as pancadas que vão para fora ou as subidas à rede, que são ótimas, mas nem sempre dão certo, é normal. Não dava certo 100% das vezes para Sampras e Becker, por que daria para ele?

Não me interprete mal, não estou dizendo que o já maior tenista canadense de todos os tempos não é bom jogador. Longe disso. O garoto é bom. Muito bom! Não ganharia de três top ten e subiria mais de cem posições no ranking em dois meses, vencendo um ATP e sendo vice campeão de outro se não o fosse. Acho apenas que é muito cedo para dizer que ele é o próximo número um ou quebrador de recordes. Quem já o viu no saibro em algum torneio de expressão? Quem já o viu jogar quando o saque não funciona? Como ele se comportará defendendo pontos importantes (em um jogo ou em um torneio)? Vamos esperar um pouco mais. Lembro de Isner, Berdych, Cilic, dentre tantos outros que despontaram como fenômenos e acabaram se provando tenistas normais como quaisquer outros.

Agora, há de se dizer que Raonic é ainda muito jovem e tem muito a aprender e evoluir. Tudo depende da confiança que terá em seu(s) treinador(es), de como lidará com o sucesso e de quanta vontade terá de aprender mais, e nisso Federer e Nadal podem servir de exemplo para ele. Movimentação e precisão se adquire treinando. Paciência, consistência e inteligência já estão mais dentro dele e não podem ser apreendidos com treino se ele não as quiser/puder pôr para fora. Veja o caso de Andy Murray. Tecnicamente fantástico, mas a cabeça o impede de entrar para história do esporte.

Torço para que o canadense evolua, aperfeiçoe ainda mais o voleio, suba ainda mais à rede, angule, explore mais spin, jogue com inteligência e use a potência fantástica de seus golpes apenas para decidir os pontos. Se assim o fizer, Federer terá boa parte de seus recordes quebrados. Caso se contente em ser um espancador de bolinhas, talvez não brilhe tanto. Vamos ver, só o tempo dirá. Até lá, de olho nele!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Ídolo ou não, lá vai ele!

Os recentes fracassos – se é que podemos usar este termo tão pesado – de nosso tenista número um, Thomaz Bellucci, me fizeram voltar a pensar no que já escrevi antes sobre a pressão que o paulista sofre para ser um ídolo no esporte. Olha, quanto mais penso nisso, menos tendo a concordar com o que parece ser a opinião da maioria, isto é, não acho que devamos cobrar de Thomaz que ele seja um ídolo, top ten ou qualquer coisa do tipo. Veja meus argumentos.

Em primeiro lugar, ser um ídolo é algo muito diferente e maior do que ser um grande atleta, com bons resultados. Quantos atletas brasileiros têm o respeito e a admiração de seu povo como o tem o grande Zico? E ele não carrega no currículo a metade das conquistas de Pelé, que é muito mais respeitado pelo que fez do que de fato pelo que é. Michael Schumacher possui sete títulos mundiais, mas em quase todas as eleições de revistas especializadas é de Ayrton Senna o título de maior de todos os tempos, mesmo tendo conquistado menos da metade dos títulos do alemão. Voltando ao tênis, o incomparável Guga se tornou uma lenda no esporte aqui no Brasil. Ele é respeitado e admirado no mundo inteiro, idolatrado pelos tenistas tupiniquins e objeto de verdadeira adoração do seu povo. Isso sendo “apenas” um jogador de tênis, esporte de nenhuma tradição por aqui. Nos EUA, Sampras é o tenista de maiores conquistas no esporte, seguido por Agassi. Em quadra, o primeiro era – pelo menos em minha opinião – bastante superior ao segundo, mais genial e dono de maiores recursos, mas o marido de Steffi Graf é um ídolo de maior expressão, mesmo tendo se envolvido em várias confusões e polêmicas ao longo da carreira. Sampras é mais respeitado tecnicamente; Agassi o é simplesmente por ser Agassi. Se formos analisar o campo das artes isso fica ainda pior. Quantos e quantos artistas sem muito talento se tornam ou se tornaram verdadeiros ícones em suas gerações, ao passo que alguns talentosíssimos acabaram jogados ao ostracismo? A vida é repleta desses exemplos, é só prestar atenção. E é por causa disso tudo que digo, sem medo de me achar precipitado, que Thomaz Bellucci nunca será um ídolo de expressão nacional, mesmo que se torne um dia o número um do mundo. Por quê? Fácil: porque ele não tem aquele “algo mais” que o leve até lá. Não estou falando de seu jogo, da parte técnica, estou falando dele, do próprio Thomaz. Ser um ídolo é algo que não se tem muita escolha, ou você é ou você não é. Quantos fãs tem Kim Clijsters e quantos tem Justine Henin? Qual das duas joga mais tênis? O carisma, a aura, a sensibilidade natural para se colocar, se comunicar e ser compreendido sem esforço nascem com a pessoa, não se ensina em academias ou centros de treinamento. Bellucci não tem isso e nem precisa ter. O problema não é ele, mas sim o povo brasileiro, que quer lhe dar características que não são possíveis de serem adquiridas.

O que acho pior nessa história toda é que parece que ele quer ter isso para poder responder à pressão que sofre. Bellucci, meu filho, para com isso! Deixa disso! Sai dessa! Você não é o Guga – e isso não é, nem de longe, uma ofensa ou crítica, ok? – e nem precisa ser! Você tem que ser você mesmo e ir em frente, jogando seu tênis e buscando evoluir sempre. O povo que se vire pra entender que você é assim, mais sisudo, introspectivo e caladão mesmo. Nelson Piquet foi tricampeão e gênio nas pistas sem se tornar um décimo do ídolo que Senna é. Relaxa. Vai buscar o que é seu na sua profissão e pronto, ok?

O outro lado da questão é o aspecto técnico. Aí, sim, a coisa complica bem mais. O brasileiro vem jogando mal – pelo menos neste início de temporada – e não apresenta a postura em quadra que se espera dele ou de qualquer um que se candidate a top ten. Todo atleta, ídolo ou não, deve entrar em uma partida ou disputa “com a faca entre os dentes”. No tênis, onde o jogo depende só de você, onde você não tem outros companheiros para te ajudar, o jogador precisa estar sempre no limite. Bellucci, no momento, não parece estar. Sua capacidade de “voar” durante os jogos e se abater com isso é, em minha opinião, o que mais lhe atrapalha, junto, é claro, com a pressão que carrega nas costas – ou na raquete. Esta tem pesado uns dez quilos, neste início de ano. Mas parte disso é culpa dele. Graças ao ótimo fim de temporada no ano passado, Thomaz começou o ano dizendo que ia buscar o top ten, juntando-se a Larri Passos para atingir este objetivo. O povo brasileiro criou uma expectativa absurda, como se o ex-técnico de Guga fosse um mago e o tênis um esporte fácil. O processo de adaptação dos dois pode levar uma temporada inteira para acontecer. Larri modificou tudo que Bellucci entendia sobre seu próprio jogo. Não é de uma hora para outra que se assimila isso, jogando dez anos anteriores de um estilo no lixo. É claro que o paulista vai sentir dificuldade de adaptação, óbvio que vai. É injusto reclamar dele agora. Nesse aspecto, pelo menos, é. O que não pode acontecer – e tem acontecido – são as “voadas”. Thomaz precisa de mais poder mental, de mais concentração e, principalmente, capacidade de assimilar seus erros, deixar o ponto para trás e ir em busca do próximo. Remoer o que passou diminui sua atitude/coragem em quadra, fazendo o adversário crescer, o que torna tudo muito mais difícil. Lembro-me de Fernando Meligeni, que era – e ainda é – amado pelos brasileiros, mesmo sendo argentino de nascimento. O motivo disso? O que fazia em quadra. Não era um gênio, mas doava a vida a cada ponto, com orgulho estampado no rosto de estar ali. Se Bellucci chegar nesse nível fico satisfeito. Pode morrer sem ganhar mais um título, mas fico satisfeitíssimo.

O mais importante para os brasileiros que acompanham Thomaz agora é ter ciência de que chegar a ser o número 21 do mundo pode ser o ápice de sua carreira. E, se assim for, temos que enaltecê-lo do mesmo jeito. Se um dia a seleção de futebol da Venezuela se classificar para uma copa do mundo e for às oitavas de final o país para, vira feriado, os atletas ganham estátuas, medalhas e tudo que tiver direito. O futebol lá é tão popular quanto o tênis aqui. Temos que respeitar alguém que consegue chegar ao top 30, pessoal. É uma obrigação nossa.

Fico imaginando se Andy Murray fosse brasileiro. Coitado do britânico. Se lá a coisa já é feia pra ele, imagina por aqui...

Vamos dar tempo a Bellucci, pois tenho certeza que não existe um brasileiro que queira mais que ele se torne um gigante em seu esporte do que ele próprio. E só ele pode correr atrás disso. Aumentar a pressão sobre ele só piora as coisas. Vamos ter paciência com o rapaz, pois, ídolo ou não, ele vai em busca do que todos – inclusive ele – querem e esperam.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

De fato e de direito...


Não fosse a existência de Justine Henin no circuito, o título deste post seria “de onde nunca deveria ter saído”. Isso para falar da merecida volta de Kim Clijsters ao topo do ranking da WTA. À exceção de sua compatriota belga, Kim tem o tênis mais completo e envolvente do circuito feminino dos últimos anos, defendendo e atacando muito bem. Ela é muito inteligente e agressiva em quadra, mas consegue fazer isso sem se limitar às pancadas da linha de base. Com Henin fora aposentada, merece, há muito tempo, o número um. E agora ela está lá de volta.

Clijsters não vem jogando muitos torneios, está em outra fase da carreira, já é mãe, já não é mais uma menina em busca de provar para o mundo o seu valor. Ela é uma tenista consolidada, que já esteve no lugar mais alto do ranking, já venceu muito e joga porque quer. Ainda assim, disputando um número bem menor de torneios do que a média das rivais, conseguiu voltar ao topo. E creio que ficará lá por algum tempo.

O jeito de ser de Kim também a transforma em uma colecionadora de fãs ao redor do mundo, pois o sorriso sempre presente no rosto, o bom humor e a simpatia a todo instante fazem dela objeto de adoração por fãs e até mesmo colegas de profissão.

A volta da belga ao número um é justíssima e era aguardada pela comunidade tenística há muito tempo. E esta mesma comunidade não quer que o tempo passe, pois este pode ser o último ano da carreira de Clijsters. Só nos resta aguardar e torcer para que isso não aconteça.

O DJ do torneio em Paris foi sábio ao colocar na P.A a música “don’t stop ‘til you get enough ” de Michael Jackson ao fim do jogo. Não pare, Kim, não pare. Não se dê por satisfeita ainda. E parabéns pelo número um!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Pura nostalgia...

Quanto mais eu vejo jogos de tênis hoje em dia, mais me dá saudade de alguns jogadores que tive o prazer de ver jogar. Penso sempre que se fulano ou cicrano estivessem no circuito atual, a coisa ia ficar feia pra muita gente que freqüenta o top dez, por exemplo. Quem não ia querer ver um jogo entre um Ivan Lendl em forma contra um Roger Federer naqueles dias inspirados? E que tal Sampras no auge contra Nadal? Infelizmente isso só é possível de se ver nos jogos de exibição, onde a idade já faz muita diferença, e em vídeo games, e mesmo assim sem todas as combinações e realidade que gostaríamos. O fato é que, para mim, muita da magia do tênis tem ficado para trás nos últimos anos, onde reina a pancadaria e sobram os jogadores e jogadoras de contra ataque. Onde foi parar a combinação excêntrica e fantástica de graça e fúria dos voleadores?

A impressão que tenho é que o pessoal anda achando que dar pancada lá de trás da linha de base e ser agressivo é a mesma coisa. Nadal não tem a bola que se possa chamar de forte (no que diz respeito à potência, claro), mas é um tenista muito agressivo do fundo da quadra, mesmo com seus golpes cheios de spin. Com Federer acontece a mesma coisa. Sua bola é leve, cheia de ângulo e em alguns momentos bastante acelerada, mas seu jogo – quando não tem os famosos apagões – é de uma agressividade impressionante, com subidas à rede e paralelas lá do fundo que tiram o sono de qualquer um. Djokovic vem fazendo um jogo bastante agressivo também, mas ele já tem mais força e peso na bola do que o espanhol e o suíço. No tênis feminino, então, meu Deus, a força tem sido a tônica dos jogos das meninas há algum tempo.

O que quero dizer é que parece que o esporte que já primou pela elegância tem tomado rumos cada vez mais distantes do que se imaginou um dia, encurtando o espaço da estética e técnica do jogo, aumentando o da resistência, força e virilidade. Por isso que os fãs mais novos de tênis não dão muita atenção a jogadores como Llodra, outros criticam a postura “blasé” de Roger Federer e alguns nem conhecem Justine Henin (acredite!), apenas a Sharapova... Em uma época onde todos os esportes tendem a ficar cada vez mais físicos e menos técnicos, começa a faltar espaço para homens e mulheres como estes no gosto popular.

Para aqueles que não entendem bem o que estou falando, fiquem com os vídeos abaixo e vejam que agressividade e pancadaria não têm a menor relação; que jogar do fundo da quadra e jogar apenas no contra ataque são coisas bem diferentes. Pode ser pura nostalgia, admito. Mas divirtam-se com os vídeos! Eu me diverti muito...








quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Quem condena?

Nas últimas semanas dois tenistas brasileiros foram alvo de muita polêmica, graças a decisões que tomaram em quadra. Marcos Daniel e Thiago Alves, cada um a seu modo, agiram de acordo com aquilo que julgavam correto no momento e levantaram discussões em todas as redes sociais do mundo em que havia pelo menos dois fãs de tênis. Sem julgar qualquer mérito ou demérito nas decisões de ambos, vou comentar o assunto, expondo aquilo que penso a respeito, o que não é, necessariamente, a verdade absoluta. Nem assim pretendo que o seja, é apenas a minha opinião, ok?

No dia do jogo de Marcos Daniel, ainda na primeira rodada do Australian Open de dois mil e onze, me enchi de esperanças de ver uma boa partida e um brasileiro fazendo bonito na Rod Laver Arena. Mas quando a disputa começou, logo percebi que isso seria só uma doce ilusão. O brasileiro não oferecia resistência, não se movia em quadra corretamente e perdeu o primeiro set sem marcar um ponto sequer. No meio da segunda parcial veio o abandono do brasileiro. Depois viemos a saber que ele estava sentindo uma forte lesão no joelho, que passara a incomodá-lo em um treino alguns dias antes. Quando vi que o próprio tenista disse que sabia que não tinha condições de jogo devido a essa lesão, me irritei e perguntei, sem obter resposta: “Por que não se falou nisso antes? Por que esperar o jogo? Por que não abandonar antes e não passar essa vergonha, já que sabia que não poderia competir contra ninguém?”. Logo vieram matérias em todos os veículos ligados ao tênis informando que Daniel entrou em quadra por causa do prêmio em dinheiro (cerca de trinta e três mil reais), pois precisava dele para sustentar sua família. Minhas críticas cessaram imediatamente. Quem pode condenar um homem por querer o melhor para sua família? E ele não havia feito nada errado. Seu único “crime” foi entrar em quadra sem condições, única e exclusivamente pelo dinheiro. E é nisso que quero basear meu argumento, mas primeiro vou falar do caso de Thiago Alves e depois concluir, ok?

A polêmica de Thiago é um pouco maior e deu muito mais repercussão na imprensa esportiva e nas redes sociais do que a de seu colega gaúcho. A causa disso tudo foi sua derrota para o sul-africano Nikala Scholtz no qualify de Johanesburgo e sua declaração oficial através de sua assessoria de imprensa, que dizia que ele não se esforçou muito no jogo, pois enfrentaria um adversário muito difícil no dia seguinte e precisava se poupar, já que já estava classificado, independente do resultado da partida. Aí começaram os gritos de “entregou” e as pedradas no tenista, acusando-o de anti-ético, desrespeitoso com o esporte, com o público, com o atleta que enfrentava e com o outro lucky loser, e por aí vai. Vamos analisar as coisas por partes.

1 – Eu entendo “não se esforçar muito” como algo “jogar em um ritmo mais lento, se der pra ganhar, beleza” e não “vou perder logo isso aqui, porque não tô nem aí”;

2 – Atletas profissionais vivem do dinheiro que ganham com patrocínio, premiações e títulos. Thiago apostou que poderia ir mais longe no torneio, e, consequentemente, aumentar as chances de melhorar tudo isso aí que falei, então jogou “com o regulamento debaixo do braço”, como dizem no esporte. É errado?

O que quero dizer é: não podemos nos iludir e pensar que um atleta profissional pratica o esporte apenas pelo amor, pela alma esportiva ou algo do tipo. Estes somos nós, os amadores que jogamos porque adoramos e só isso nos basta. Eles jogam porque precisam dele, acima de tudo. Esporte pelo simples espírito esportivo é o frescobol. O tênis profissional é coisa séria, e é por isso que tem regras, juízes, associações e todo o tipo de controle sobre ele. Milhões de dólares são gastos por ano em premiações, patrocínio e organização de eventos. Não dá para achar que neste mundo só existe amor ao esporte. Não nos iludamos. Thiago não fez nada diferente do que a maioria de nós também faria se estivesse em seu lugar. Quem joga o mínimo de tênis sabe o quanto este esporte exige física e mentalmente, como são caros bons equipamentos. Imaginem o esforço gasto na formação de um profissional? Alguém aí tem ideia do quanto de dinheiro se gasta para formar um tenista nível ATP? Como condenar alguém que passou por muita coisa, inúmeras privações, investiu uma fortuna para chegar onde está, para aparecer, para subir no ranking, vencer um torneio importante e, por isso, opta por uma decisão que, pelo menos em tese, o ajudaria no restante da competição? É verdade que ele não avançou como imaginou que o faria e acabou somando menos pontos, mas ele apostou. E, em minha opinião, apostou bem. Ele pensou pra frente, apostou em vencer e seguir no torneio, pensou na continuidade da competição, nas suas chances de conquistas e quis aumentá-las. E por isso acho que está certo. Se ele tinha condições físicas para jogar em plenas condições duas partidas no mesmo dia e mais uma contra um adversário difícil no dia seguinte, só quem sabe é ele. Ele e mais ninguém. Eu não posso me atrever a dizer, sem ser o próprio atleta, se ele tinha ou não tinha condições de jogo. Seria leviano de minha parte afirmar isso. Só o próprio atleta sabe até onde pode chegar.

Voltando ao Marcos Daniel, faço uma pergunta: por que ele foi tão elogiado por enfrentar Nadal mesmo machucado e Thiago tão condenado pela decisão que tomou? Lembro a vocês que Daniel deixou bem claro que jogou apenas pelo dinheiro. Ele jamais falou em respeito ao público, a Nadal, ao esporte ou a quem quer que seja. Sua única justificativa foi o dinheiro. Quer dizer que por dinheiro pode, mas pela esperança de fazer uma melhor campanha e vencer um torneio importante não? Ora, não estou entendendo isso...

Vamos parar com essa de achar que os profissionais jogam pelo mesmo objetivo que os domingueiros, ok? Eles não estão ali apenas pelo amor ao esporte. Muitos deles nem amam aquilo que fazem. Agassi só aprendeu a gostar de tênis de verdade aos vinte e sete anos, quando já tinha vários títulos no currículo. Eles jogam porque são profissionais, assim como um médico, um professor, um jornalista ou algo do tipo. Eles precisam, como todos os demais, de uma carreira de sucesso, de remuneração e reconhecimento. É por isso que eles jogam, ok? Quem joga só por amor, porque acha o tênis algo fantástico, somos nós.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Coisa de fã!


Todo fã de alguma coisa ou alguém, seja de um atleta, artista de televisão, rupo musical, ou qualquer coisa do tipo, tem pelo menos uma história divertida para contar sobre sua relação com o ídolo. A que vou narrar abaixo aconteceu comigo e envolve Gustavo Kuerten, o nosso grande Guga.

Em dois mil e um, quando nosso eterno número um ia disputar a final de Roland Garros na tentativa de defender seu título e, naquele momento, bicampeonato, minha namorada na época insistiu que queria sair para passear. Por mais que tentasse, não consegui dissuadi-la da ideia. Não havia alegação que desse jeito. O que fazer? Acabei sugerindo que fôssemos a um motel. Além das razões óbvias de se ir a um lugar como esses, a TV a cabo disponível se tornava um grande atrativo naquele dia. Não precisei nem falar duas vezes, rapidamente estávamos no carro indo para nosso destino.

Quando chegamos lá, eu agia naturalmente e fazia a “lição de casa” direitinho, mas durante os “intervalos”, a TV ficava ligada no jogo do Guga. Até que, perto do fim da partida, ela começou a querer, digamos, mais um pouco daquilo que nos levara até ali. E o dilema? Ver o Guga ser tricampeão de Roland Garros só aconteceria uma vez na vida! Aquilo podia esperar. Mas como fazer isso sem criar problema? Como? Olhei em volta em busca de alguma ideia e acabei me deparando com a banheira de hidromassagem. Pronto, ali estava minha saída. Perguntei a ela: “você não quer tomar um banhozinho bem gostoso antes?”. Só tem um detalhe: eu sabia que ela NUNCA entrava em banheira de motel, mas eu não dava a mínima pra isso, muito menos naquele dia. Com a resposta negativa que já esperava, eu disse: “pô, mas deixa eu dar uma relaxada primeiro, então”. Molezinha, em questão de minutos eu estava lá, prostrado na banheira, vendo o set final do jogo. Quando ela se tocou do meu truque já era tarde demais: Guga já estava desenhando o coração no saibro sagrado e eu chorando feito um paspalhão na banheira.

Enfim, com a vitória garantida, voltei para os meus “afazeres”, que ainda duraram mais algumas ótimas horas...

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Segura o homem!

E mais uma vez aconteceu: Andy Murray não jogou o que sabe em uma final de Grand Slam e o adversário saiu com o título. A diferença desta vez foi que o vencedor jogou de uma maneira tão brilhante que seria difícil para o britânico esboçar qualquer reação. Novak Djokovic, agora bicampeão na Austrália, atropelou sem dó um perdido Andy Murray em Melbourne. O número cinco do mundo vinha de um torneio sensacional, se dizia cheio de confiança e em boas condições mental e física. Mas não foi isso que vimos em quadra, principalmente no segundo set, onde por pouco não levou um pneu do sérvio. Murray teve aqueles jogos tradicionais das finais, onde fica devolvendo bolas com muito menos risco do que de costume, aguardando um erro do adversário. Em boa parte do primeiro set isso deu certo, mas aí Djokovic acordou e a coisa degringolou para o número um da Grã-Bretanha. Os dois sets finais foram um atropelo de rolo compressor do sérvio, sem qualquer chance de reação para qualquer tenista que estivesse do outro lado. Qualquer um.

Novak Djokovic, o Nole, mereceu o título. Como eu disse aqui na véspera da primeira semifinal masculina, ele e Federer jogavam o melhor tênis do torneio, mas o sérvio repetia atuações sensacionais jogo a jogo, ao passo que o suíço tinha seus constantes apagões. Por isso, pelo menos nesta edição do Australian Open, venceu o melhor. E tenho certeza de que disso ninguém duvida. Queremos ver agora uma briga mais acirrada no topo. Nadal tem muitos pontos a defender nesta próxima parte da temporada, enquanto Federer e Djokovic não. Se ambos jogarem o melhor de seu tênis, teremos um ano espetacular para o esporte! Aguardemos ansiosamente o que vem por aí.
Quanto a Murray, honestamente acreditei que desta vez sua cabeça fosse deixá-lo em paz e o pobre rapaz fosse levar o título. Tênis para isso ele tem, mas parece que sempre o deixa no vestiário nos dias de final de Grand Slam. Quem sabe não seja a hora de mudar de treinador? Alguém com mais agressividade, que o faça ir para cima dos adversários sem medo, que o faça acreditar que é possível, seria mais indicado para ele agora, antes que seja tarde demais.

De qualquer forma, a temporada se iniciou de maneira sublime. Vamos ver se não teremos mais do mesmo ao longo do ano e poderemos ver mais momentos com Djokovic e Murray em finais, vencendo e colocando fogo na parte de cima do ranking.

E quanto ao sérvio... Bom, se continuar com essa bola que jogou na terra dos cangurus, vai ficar difícil, viu? Segura o homem!

Ela merece!

Que grande jogo tivemos nesta manhã de sábado (noite na Austrália)! A final feminina do Australian Open reuniu as duas melhores jogadoras do torneio: Kim Clijsters – que, para mim, com a aposentadoria de Henin passou a ser a melhor em atividade – e Na Li. Uma, tricampeã do US Open, ex número um do mundo e em ótima forma técnica. A outra, fazendo história em seu continente, chegando a uma final de um torneio de Grand Slam pela primeira vez, jogando um ótimo tênis. A primeira chegava como favorita, a segunda como azarão, mas a coisa quase se inverteu na hora que a bola começou a viajar pela quadra.

Na Li fez um belo primeiro set, enquanto Clijsters errou muito e não conseguiu manter o equilíbrio do jogo por muito tempo. Resultado: perdeu a primeira parcial. Mas a partir da metade do segundo set as coisas começaram a andar bem para a belga, que venceu com certa facilidade. A chinesa começou a pressionar mais, errar mais e Kim a errar menos, controlando cada vez melhor os pontos e o jogo. No fim, venceu a melhor. Melhor na partida, melhor no torneio, melhor no circuito. Ela agora parte em busca do primeiro lugar do ranking mais uma vez, já que subiu uma posição e está bem perto de Wozniacki, que defende muitos pontos este ano. Vamos ver como será sua temporada.

Ficam aqui os parabéns à chinesa, que fez uma campanha extraordinária. Mais do que isso, faz uma temporada extraordinária, perdendo pela primeira vez no ano nesta final contra Clijsters, tendo sido campeã em Sydeney. Eu falava dela desde o início do torneio, que vinha quietinha, à margem das câmeras, e que poderia chegar muito longe em Melbourne. E chegou. E, por pouco, não ficou com o título. Espero que ela mantenha o ritmo ao longo do ano. A WTA está precisando ganhar emoção. O jogo de pancadaria e/ou de balõezinhos lá do fundo da quadra precisa evoluir, precisa melhorar. Henin abandonou a carreira. Vamos ver se Serena volta a jogar com um pouco mais de vontade e Clijsters joga mais torneios. Precisamos de um pouco mais de inteligência e habilidade dentro da quadra. Os fãs agradecem.

Quanto a Clijsters, não há muito o que dizer que eu já não o tenha feito ao longo deste torneio. A belga joga um tênis gostoso de ver, é muito carismática, ilumina o circuito com seu sorriso despojado e é a mais talentosas de todas as tenistas que estão aí. Tomara que jogue muito ainda este ano, pois queremos vê-la levantar muitos troféus. Ela merece!

sábado, 29 de janeiro de 2011

E agora, o que será?

“Como será amanhã? Responda quem puder”. É assim que começa uma das canções mais famosas da música brasileira, eternizada na voz de Simone. E foi tentando responder a esta pergunta que passei os dois últimos dias, desde a vitória de Andy Murray sobre David Ferrer. Não estamos acostumados a isso no mundo do tênis: há muito tempo não se via uma final de um grande torneio sem Nadal e/ou Federer. O último Grand Slam em que isso aconteceu foi em dois mil e oito, quando Djokovic venceu Tsonga neste mesmo aberto da Austrália, conquistando seu primeiro e único título de major. E tenho certeza de que o fato de o número um ou o número dois do mundo não estar do outro lado da quadra é estranhíssimo para os dois jogadores que se enfrentarão amanhã em busca do feito épico que é vencer um torneio de Grand Slam. Andy Murray tenta sua primeira conquista deste porte. Já bateu na trave algumas vezes, mas sempre encontrou o suíço ou o espanhol pelo caminho. Djokovic tenta o bicampeonato na terra dos cangurus e também segundo major na carreira. Quem leva vantagem? Qual a importância desta final para o porvir deste esporte que enfrenta a hegemonia Nadal-Federer há mais de cinco anos?

Vou tentar responder à pergunta mais fácil primeiro. Qual a importância de uma final de Slam, depois de tanto tempo, sem os dois melhores tenistas da atualidade? Enorme. Não somente pela final em si, mas para o que ela pode representar para os dois jogadores envolvidos. Em dois mil e oito, quando o sérvio venceu, seu tênis não era sombra do que vem apresentando hoje, que está cada vez mais agressivo, sólido e consistente. Seu preparo físico também evoluiu – apesar de ainda não ser o adequado para um top 5 – e sua cabeça, que sempre foi um de seus principais adversários, melhora mais e mais a cada dia. O jogo contra Federer na semifinal foi um exemplo disso. Parecia que era Djokovic quem defendia o título, que ele era o favorito, tamanha a confiança com que entrou em quadra e mandou o suíço de volta para casa mais cedo. Golpes certeiros, rápidos e muita força física não deram a menor chance para o número dois do mundo. Uma nova conquista de Grand Slam neste ponto de sua carreira pode lhe fazer acreditar que é possível vencer e chegar ao topo, coisa que acho que sempre o atrapalhou nos momentos decisivos. Em quase todas as oportunidades em que estava chegando perto demais do número dois do ranking da ATP sua performance caía absurdamente. Agora não vejo mais isso acontecendo e creio que a vitória amanhã lhe dará toda a confiança que precisa para ir em busca dos dois “intocáveis” tenistas que estão acima dele.

Por outro lado, Murray é um jogador extremamente habilidoso, versátil e competente. Defende de uma maneira que só Nadal sabe fazer atualmente. A capacidade de fazer reviravoltas em seu jogo durante uma partida é única no circuito. O que lhe falta? Duas coisas: cabeça no lugar e confiança. Ok, falta um pouco mais de agressividade a seu jogo e subidas mais eficientes à rede, mas nada que sua competência ímpar do fundo da quadra não minimize. O que vejo que realmente precisa evoluir no britânico é sua estabilidade emocional. Acho até que ela também afeta sua confiança. Amanhã ele terá sua prova de fogo. Se tiver controle para fazer seu jogo com inteligência e vencer um embaladíssimo Djokovic na final de Grand Slam que entra com mais chances de vencer, provará para o mundo e principalmente para si mesmo que é digno do topo. E Andy Murray confiante e sem a paranóia dos Slams não vencidos, sem a pressão dos britânicos que não vencem um major há mais de setenta anos, pode ser ainda mais perigoso.

Mesmo correndo o risco de contrariar alguns dos maiores nomes do tênis e do esporte mundial, não acho que o top 5 atual seja o pior da história. Certamente não é o melhor, mas ainda acho que está longe de ser o pior. Murray e Djokovic são excelentes jogadores. Neste início de temporada estão jogando melhor do que os dois primeiros do ranking. Soderling vem evoluindo, mas não acho que ele esteja no nível dos outros quatro, apesar de estar na frente de Murray até o momento. Agora, daí pra cima realmente a coisa complica. Aí sou obrigado a concordar com Sampras...
Resumindo o que quero dizer, uma final entre Novak Djokovic e Andy Murray pode ser o início de uma era de disputas mais equilibradas e títulos mais distribuídos; pode iniciar uma era de várias grandes disputas e rivalidades, não se limitando a apenas dois tenistas. Tenistas sensacionais, mas apenas dois. É pouco. Quem acompanha tênis desde o fim dos anos oitenta como eu o faço, sabe o que estou falando. Quem é mais antigo ainda, nem se fale...

Imagino que, se Murray vencer, pode ser o despertar de uma fera que vem ensaiando a fuga da jaula há algum tempo. Joga demais o escocês. Se aprender a subir à rede com mais freqüência e a escolher melhor os momentos para fazê-lo, pode se tornar um novo fenômeno do esporte. Se o sérvio levar a melhor, pode começar a acreditar que também tem o direito de ganhar vários Slams e continuar a soltar as bordoadas que distribuiu em Melbourne ao longo do ano. O jeito é esperar mais algumas horas para ver qual será o caminho que se desenhará para os dias que vêm por aí.

Já a outra pergunta, essa é complicada demais. Quem leva vantagem amanhã? Não sei mesmo afirmar uma resposta. Não me obriguem a dizer um nome, pois não tenho certeza de nada. Quando penso em Djokovic, me lembro da barbaridade que Murray jogou ao longo do torneio, principalmente contra Ferrer, onde soube achar um caminho para uma grande vitória. Quando penso no escocês, penso na quantidade de pancada e na velocidade que o sérvio impõe ao jogo e o quanto sufoca o adversário no fundo da quadra. Mas, como tenho que dar uma resposta, vou de Andy Murray. Acho que se estiver com a mão calibrada e os nervos no lugar, leva essa. Ele já vem merecendo há um tempo.

Quem comemora amanhã? Só esperando pra ver.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Que semifinais!

Grandes jogos nesta primeira noite de semifinais do Australian Open! Sem muita embromação, vamos a eles!

Caroline Wozniacki x Na Li
O jogo que mostraria de verdade se a número um do mundo estava preparada para vencer um Grand Slam não foi muito diferente do que eu esperava: cheio de possibilidades e com a vitória podendo ficar para qualquer um dos lados. Apostei em Wozniacki porque a solidez que apresenta do fundo de quadra, defendendo muito bem, poderia ser decisiva novamente se Na Li errasse muito. E quase foi assim, quase. No primeiro set a dinamarquesa venceu com certa facilidade. No segundo, chegou a ter um match point, mas não aproveitou e a chinesa acabou vencendo. No terceiro, errando menos, ficou mais fácil para a número onze do mundo vencer a defensiva tenista líder do ranking, que não marcou um único winner sequer nesta parcial. Wozniacki precisa rever sua estratégia. Sem atacar não se manterá onde está por muito mais tempo. Seja como for, a chinesa – que joga um ótimo tênis – avança e enfrenta Kim Clijsters em uma final com gosto de revanche para a belga. É só esperar pra ver.

Kim Clijsters x Vera Zvonareva
Jogo que se desenhou muito diferente do que a maioria previa. A belga número três (agora número dois) do mundo venceu, sem qualquer dificuldade, a russa dos belos olhos azuis. Zvonareva não conseguiu superar o jogo sólido, agressivo e competente de Clijsters, que entrou extremamente concentrada e sem os apagões de partidas anteriores. Como eu disse ontem, a facilidade que encontrava nos outros jogos lhe dava o direito de ousar e tentar mais variações. A belga respeitou Zvonareva e jogou com menos risco, mas não menos agressividade. É impressionante sua capacidade como tenista, dá gosto de ver. Ela agora enfrenta Na Li na final e pode ter sua revanche de Sydney. Grande final, que premia as duas jogadoras que apresentaram o melhor tênis do torneio.

Novak Djokovic x Roger Federer
O jogo mais esperado das semifinais teve um resultado diferente do previsto pela maioria. Não pela vitória de Djokovic, mas por ter sido em sets diretos e sobre um Federer que não conseguiu jogar. O suíço voltou a forçar o jogo do fundo da quadra, sem a agressividade que o fez atropelar Wawrinka, e vencer os dois primeiros sets contra Simon, por exemplo. Mas quem viu o jogo sabe que isso se deu porque o sérvio jogou demais e não deixou o número dois do mundo jogar. Ele distribui pancada atrás de pancada, bolas muito rápidas e certeiras, além de ter sacado melhor hoje. A vitória foi justa e Federer foi bastante elegante ao dizer após o jogo que hoje ele enfrentou alguém que estava melhor do que ele na quadra, simples assim. Djokovic agora espera o resultado da semifinal entre Andy Murray e David Ferrer para ver quem será seu adversário em mais essa final de Australian Open. Bi campeonato à vista? Só esperando para ver.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Adeus que a gente não quer dar: Justine Henin


Hoje, vinte e seis de janeiro de dois mil e onze, através de uma carta publicada em seu perfil do facebook, a tenista belga Justine Henin se despediu oficialmente do tênis. Uma lesão grave no cotovelo a impede de jogar em alto nível e, consequentemente, competir profissionalmente. É uma pena, mas temos que dar adeus a uma das maiores jogadoras de tênis de todos os tempos e, na minha opinião, a melhor dos últimos quinze anos, pelo menos.

Henin era dona de um estilo próprio, arrojado e agressivo. Seu backhand com apenas uma das mãos, coisa raríssima de se ver no tênis feminino – e nos dias de hoje até mesmo no masculino –, era avassalador: potente e preciso, causava estragos nas defesas adversárias. A belga que venceu sete vezes torneios de Grand Slam (um Australian Open, quatro Roland Garros e dois US Open), uma olimpíada (Atenas, 2004) e quarenta e três torneios WTA, era dona de um jogo rápido e versátil, com muitos golpes e variações. Não foi à toa que ficou sessenta e uma semanas consecutivas no topo do ranking e cento e dezessete no total (12ª e 7ª da história, respectivamente).
Lembro-me da primeira vez que a belga anunciou sua aposentadoria, em dois mil e oito, na primeira posição do ranking, no auge da forma, com milhares de pontos à frente da segunda colocada. Não entendi nada, mas não se pode lutar contra a falta de motivação de um atleta. Só me recordo de ter ficado chocado e triste, pois vê-la jogar me fazia bem, mas ainda pensava que poderia haver uma “desistência de desistir” de sua parte, o que acabou acontecendo dois anos depois. Agora é diferente, é o corpo quem manda, e quando ele quer, o atleta tem que obedecer, não tem jeito.

A aposentadoria de Justine deixa um vazio no tênis atual, onde a maioria das atletas joga na base da força, soltando golpes potentes do fundo da quadra, com pouquíssimas variações e/ou alternativas. Sua compatriota Kim Clijsters é uma rara exceção, mas de maneira geral, não vemos mais jogadoras versáteis no circuito. E a melhor delas abandona o esporte agora, vítima do corpo, que não resistiu ao ritmo frenético que a competição em alto nível exige.

A belga deixará saudade e um vazio no coração daqueles que amam este esporte. Boa sorte nesta nova fase, Henin.

Enfim, as semifinais!

Chegamos às semifinais. Quatro tenistas em cada categoria brigam por duas vagas na final do primeiro torneio Grand Slam do ano, que nesta edição não traz muitas surpresas para a reta final. Há, entretanto, promessas de jogos memoráveis que podem entrar para a história. Vamos aos jogos e a uns palpites do que pode acontecer, começando pelo feminino, depois com o masculino. Vamos lá.

Caroline Wozniacki x Na Li
Tem tudo para ser um grande jogo e, honestamente, não creio que Na Li vá avançar. Apesar de estar jogando muito bem neste Australian Open, melhor até do que a rival, a chinesa pode se irritar com as defesas incansáveis de Wozniacki e começar a cometer muitos erros não forçados, o que contra a dinamarquesa é determinante no resultado. A número um do mundo não tem o hábito de atacar – consequentemente erra muito pouco – o que torna fatal cometer muitas falhas contra ela. Tem sido assim durante todo o caminho de sua ascensão ao topo do ranking, e neste torneio não foi diferente: Wozniacki defendeu muito, errou pouco e avançou. Precisa de mais do que isso para se manter como número um e superar tenistas mais habilidosas, com um jogo mais variado do que as que andam por aí, como Clijsters, por exemplo. Na Li, apesar de jogar muito bem, é uma adepta da pancadaria da linha de base com muita velocidade. Se a dinamarquesa resistir a isso, avança. Se a chinesa variar mais o jogo, trazendo a adversária para dentro da quadra, para a rede, forçando-a a buscar alternativas, ela passa. Vamos ver como ambas vão se comportar. Como me obrigo a dar um palpite, vou de Wozniacki.

Kim Clijsters x Vera Zvonareva
Em minha opinião, a final antecipada do torneio. Acho que quem vencer esta partida, vence o Australian Open este ano. Zvonareva bateu na trave nos dois últimos slams. Clijsters venceu o último do ano passado. A Rod Laver Arena vai pegar fogo, com certeza. A russa vem fazendo jogos mais homogêneos, melhorando a cada jogo e ganhando muita confiança. Atacando e defendendo muito bem do fundo da quadra, só foi incomodada quando teve “apagões”. Enquanto a concentração esteve em alta, não deu chance para ninguém. Clijsters, por sua vez, oscila bem mais. Alguns jogos são muito bons, outros nem tanto. Durante os jogos tem momentos brilhantes e outros pífios. O que a diferencia das demais é a imensa habilidade e inteligência. E é isso que tem feito toda a diferença. Na hora que “o bicho pega”, seu talento a tira do buraco e a faz avançar, o que conseguiu fazer sem perder sets na competição até agora. Acredito em um bom jogo e também penso que muitos dos erros que a belga vem cometendo podem ser em função da “facilidade” que vem encontrando nas partidas. Ela ousa mais, arrisca mais, pois sabe que pode não ter outra chance para fazer isso mais para frente. Contra Zvonareva, por exemplo, não vai poder se dar ao luxo de errar tanto. Seu jogo terá que ser mais preciso, mas não menos ousado, agressivo e genial. É uma pena que ambas se enfrentem antes da final, mas não tem jeito. Como tenho que apostar, aposto em Clijsters.

Já no masculino...

David Ferrer x Andy Murray
Este jogo pode ter um resultado inesperado. Ferrer, o único que considero surpresa nas semifinais, não é um tenista conhecido por atacar e sufocar o adversário, mas vai atrás de todas as bolas e comete poucos erros não forçados, o que irrita demais adversários que já tendem a perder a cabeça, o que é o caso de Andy Murray. O número cinco do mundo é, em minha opinião, um dos mais habilidosos tenistas do circuito, mas é também muito instável. Se mantiver a cabeça no lugar e agredir mais – outro problema em seu jogo – pode avançar à sua segunda final consecutiva no Australian Open. O espanhol, por sua vez, vem jogando um tênis mais agressivo do que o de costume, o que pode surpreender, mas também ajudar, o britânico. Murray é “freguês” de Ferrer, mas eu não o subestimaria por isso. Ele fez um torneio espetacular até aqui, apresentando um jogo muito sólido e consistente. Se mantiver o ritmo e, principalmente, a cabeça no lugar, é candidato ao título, mesmo se enfrentar Federer na final. Acho que ele avança.

Novak Djokovic x Roger Federer
O jogo reunirá os dois tenistas que apresentam, em minha opinião, o melhor tênis desta edição do Australian Open. Federer teve alguns de seus apagões, mas quando está em quadra tem sido imbatível, quase perfeito. O suíço está jogando como há muito não fazia, agredindo e sufocando os adversários de uma maneira que os impede de reagir. Que o diga Wawrinka, que tentou de tudo, mas não chegou nem perto de incomodar. Djokovic – que já disse que entra em quadra para esta partida sem nada a perder –, por sua vez, tem distribuído pancada pra todos os lados, não dando qualquer chance aos adversários. É bem verdade que não enfrentou ainda ninguém do nível de Federer, mas atropelou Almagro e Berdych, adversários perigosos (apesar de eu não considerar o tcheco o craque que dizem, ele é perigoso), sem tomar conhecimento. Se o número dois do mundo não se mantiver focado no jogo o tempo inteiro, pode dar adeus à chance de ir a mais uma final de Grand Slam. Aposto em Federer, não só pelo histórico vencedor sobre Djokovic, mas pelo tênis que vem jogando. Se mantiver o ritmo por todo o ano, vai ser difícil não recuperar o número um do ranking e, quem sabe, até vencer os quatro torneios de Grand Slam. A temporada promete. Mas enquanto isso, fiquemos com as grandes semifinais que começam hoje.

Quartas de final do Australian Open – parte 2

Acabaram as quartas de final e os quatro melhores tenistas do mundo no momento em suas categorias foram definidos. Foram grandes jogos nesta segunda noite da rodada. Vamos a eles.

Vera Zvonareva x Petra Kvitova
A russa número dois do mundo fez o que vinha fazendo até aqui neste torneio: jogou muito bem do fundo da quadra, agredindo e defendendo com competência. O resultado disso foi a vitória em sets diretos. E teria sido ainda mais fácil se ela não tivesse passado por um apagão no melhor estilo Roger Federer no segundo set. Tem tudo para fazer um jogo espetacular na semifinal contra Kim Clijsters. E, minha opinião, esta é a final antecipada: quem passar vence o torneio. É esperar pra ver.

Kim Clijsters x Agnieszka Radwanska
A belga jogou muito abaixo do que pode e até mesmo do que vinha jogando. Errando muito no ataque e no saque, Clijsters deu muitas chances para Radwanska crescer no jogo. Apesar do resultado em sets diretos, a número três do mundo não teve vida fácil, sendo salva nos momentos críticos pelo seu enorme talento. Lances espetaculares e bolas inimagináveis a tiraram do sufoco sempre que precisou. Na média, porém, não esteve bem em quadra. Vamos ver se evolui seu jogo para a semifinal, o que precisará muito fazer, pois Zvonareva vem jogando de forma muito sólida e consistente. Se quiser passar pela russa e avançar à final, precisará fazer bem mais do que fez ontem. Seja como for, pelo enorme talento que tem, ainda é, em minha opinião, a favorita ao título.

Andy Murray x Alexandr Dolgopolov
Pela primeira vez neste torneio Murray teve que trabalhar muito para vencer uma partida. O jogo imprevisível de Dolgopolov complicou a vida do britânico que só conseguiu achar seu ritmo no quarto set, quando fechou o jogo com facilidade. Murray enfrenta Ferrer na semifinal, tenista contra quem tem retrospecto negativo. Lembrando que o número cinco do mundo tem que defender os pontos do vice campeonato do ano passado. Apesar de Ferrer vir jogando muito bem este ano e levar vantagem nos confrontos diretos, ainda acho que Murray passa à final.

Rafael Nadal x David Ferrer
O jogo que prometia ser uma barbada para Rafael Nadal se transformou em seu calvário logo no início do primeiro set, quando o espanhol sentiu dores na perna esquerda. Foram vários os pedidos de atendimento médico, mas não teve jeito, Ferrer avança. É importante ressaltar que o número sete do mundo fez, independentemente da lesão de Nadal, uma bela partida, atacando e arriscando mais do que de costume, com belas bolas anguladas e paralelas aceleradas arrasadoras. Mesmo se o número um do mundo não estivesse lesionado, a partida poderia ter sido endurecida para ele, dada a grande atuação do espanhol número dois de seu país. No fim das contas quem avança é Ferrer, que tem um retrospecto positivo sobre Murray. Vamos ver como ele comportará nesse jogo. A rodada promete.

Algo digno de nota nesta rodada foi a postura de Rafael Nadal na partida. Lesionado, sentindo muitas dores e visivelmente fora de condições de disputar a partida de igual para igual, o espanhol não abandonou a disputa e suportou até o fim do terceiro set. Um exemplo de bravura e luta de alguém que não precisava mais disso, pois já havia conseguido defender os pontos que consquistara no torneio no ano passado. Não sabemos o quanto este comportamento pode agravar a lesão e prejudicar o resto da temporada do número um do mundo, mas fica um aplauso de pé para ele pela postura de vencedor, desportista e cavalheiro.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Entrevista: Alexandre Borges, criador do projeto Tênis na Lagoa

Recentemente publiquei como foi minha visita ao projeto Tênis na Lagoa, obra social que envolve nosso esporte na zona sul do Rio de Janeiro. Naquela ocasião fiz uma entrevista com Alexandre Borges, criador e mantenedor do projeto. Publico abaixo o resultado deste bate-papo, que foi muito esclarecedor e descontraído. Como disse no outro post, ele é um cara muito fácil de se relacionar, divertido e muito atencioso. E não poderia ser diferente, pois o trabalho que conduz e, principalmente, a forma como o conduz é admirável. Leia e veja você mesmo como funciona o Tênis na Lagoa e, se possível, ajude-o a conduzir esta bela obra. As crianças agradecem. Sempre lembrando que os destaques em negrito são por minha conta.

Primeiramente, gostaria de lhe agradecer pelo tempo cedido. Obrigado mesmo. Bom, para começar, vamos falar um pouco de você. Como foi e quando se deu seu primeiro contato com o tênis? Como este esporte entrou na sua vida? Você ainda joga?
Foi pela televisão, com meu pai, assistindo a um jogo, tinha mais ou menos seis ou sete anos. Meu pai viu meus olhos brilhando para o tal jogo, e perguntou se eu queria conhecer o esporte, e prontamente eu quis. Profissionalmente, não jogo não, só por lazer ou nas aulas.

Como surgiu a idéia de criar um projeto social?
Dava aula na Lagoa, e sempre via os boleiros dos clubes passando pela quadra, e eu e uma amiga, que dava aula junto, resolvemos fazer um torneio para estes boleiros, só para movimentar, e demos conta que era um número muito grande de crianças que queriam conhecer este esporte, mas não tinham a oportunidade. Então, neste torneio – que foi no dia das crianças de dois mil e três – veio a ideia de formar um projeto para eles terem a condição de ter um lugar para jogar, já que nos clubes em que trabalhavam como boleiros eles não podiam jogar. Enfim, um chama o outro, que chama o outro, aí já viu. Formamos o Projeto Tênis na Lagoa. Fomos em escolas públicas dos bairros perto e convidamos mais crianças.

Com a idéia em mãos, como foi o processo de pô-la em prática? Você enfrentou muitas dificuldades burocráticas? Como as autoridades (governo municipal, estadual, etc.) reagem a esse tipo de iniciativa? Há apoio institucional ou “a briga é feia” pra tirar a idéia do papel?
Fomos na subprefeitura da zona sul, e pedimos permissão para utilizar as quadras, para dar aulas a crianças carentes, e eles prontamente apoiaram, e até hoje eles sempre nos apoiam, cedendo o espaço para as aulas e dando autorizações para os eventos que realizamos todos os anos: Maio - aniversário do projeto / outubro - dia das crianças / Dezembro - Natal. Deixo bem claro, não recebemos verba alguma da subprefeitura, apenas temos esta parceria de ela nos conceder o espaço para as aulas e para as festas.

Fala um pouco pra nós do que é o “Tênis na Lagoa”. Quando ele iniciou? Como funciona? Quem é beneficiado por ele?
O Projeto Tênis na Lagoa é um projeto sem fins lucrativos, que visa transformar crianças sem oportunidades em grandes cidadãos, dar a elas uma visão do que é um excelente esporte como o tênis e, é lógico, se alguma despontar vamos ficar muito felizes. Mas nosso objetivo maior é transformar cidadãos, ensiná-los a ter respeito pelo próximo, respeito por si mesmo, dar concentração, coordenação motora, relacionamento interpessoal, etc. Todas as crianças que morem em comunidades, ou que não tenham condições de pagar aulas, que estejam matriculadas em escolas públicas, e ter de seis a dezoito anos, serão muito bem vindas.

Quantas crianças são atendidas hoje? Elas precisam, obrigatoriamente, estar estudando para participar do projeto, certo?
São setenta e cinco crianças atendidas hoje. Com o começar do ano, ainda vamos ver como ficam estes números. E, sim, elas precisam estar estudando para participar.

Crianças de comunidades mais distantes da zona sul podem participar? Você tem alguma hoje nesta situação?
Podem sim, mas quanto mais longe, mais passagem é gasta. Como eu banco a de algumas, fica meio pesado para mim. Posso citar como exemplo, as duas irmãs gêmeas, mas estas eu não pago a passagem, pois elas vêm para a quadra com o pai. Uma história bem legal. Elas tinham ido ver o Remo no Flamengo, mas chegaram lá e viram que era pago e elas não tinham condições de fazer. Quando passaram pela quadra, ficaram olhando e eu percebi e fui perguntar se elas não tinham interesse de conhecer o tênis. Falei sobre o projeto, que era gratuito, e elas toparam, e hoje amam jogar. Elas moram em Rocha Miranda, e têm quinze anos.

Você tem algum exemplo pra nos dar de algum dos seus alunos que tenha tido impacto direto em sua vida devido ao projeto? Alguma situação em casa ou na escola que a convivência e aprendizado com você dentro do Tênis na Lagoa tenha sido determinante para a melhora de seu comportamento?
Eu acho posso citar o Paulinho, menino pobre, morador da Cruzada, que teria todo o perfil de aos dezesseis anos atuais estar na rua fazendo coisas ruins, devido a um histórico violento em casa, uma situação muito ruim de moradia, de convivência ruim, mas que mudou radicalmente seu comportamento dentro e fora das quadras. A escola é um ótimo exemplo para isso, ele era considerado "um menino problema", que aprontava muito, e hoje ele está bastante comedido. A diretora da escola me liga e me diz como ele está se portando, e posso afirmar que mudou da água para o vinho.

Quando os jovens atingem a maior idade (dezoito anos), como acontece seu desligamento do projeto? Algum jovem já atingiu esta condição? Como eles reagem a isso?
Eles sabem que existe este momento, mas alguns, mesmo com dezoito anos, não se desligam por completo. Eu sinto muita vontade, mas sei que isso é mais para frente, de conseguir dar continuidade para eles, dar algo, que quando completem esta idade, eles possam estar mais encaminhados, mas é algo ainda mais para frente. Sei que vou conseguir. Mas até agora, como vamos completar sete anos, e muitos começaram muito cedo, ainda não tive muitos completando dezoito anos.

A Federação de Tênis do Rio de Janeiro te ajuda ou ajudou em algum momento desde que você começou? Digo, desde a idéia em um papel até os dias de hoje.
Na verdade, como sempre quisemos apenas tirar as crianças do ócio, nunca pedimos nada à federação. Nem nunca divulgamos a ela sobre a existência do projeto, apesar de muitos me conhecerem há mais de sete anos, e sabem indireta, ou discretamente da existência do mesmo. Há dois anos mais ou menos, as crianças começaram a me cobrar que queriam jogar fora das quadras, disputar campeonatos, daí sim, fui na federação e pedi uma ajuda, para que as crianças pudessem ir jogar sem pagar a inscrição, pois como seria eu quem iria pagar estas inscrições, ficaria muito caro para eu sozinho pagar tudo, inscrição, boleiro dos jogos, passagem, e lanche. E até hoje, desde quando eu pedi da primeira vez, eles sempre liberaram a gente das inscrições e, quero destacar, eles tratam todas as crianças com muito respeito.

Você tem algum patrocínio ou parceiro que te ajude a manter o projeto ou é tudo custeado por você? Você obtém algum benefício no momento da aquisição do material de treino?
Temos há um ano e meio a Loja Protenis da Barra nos dando uma força nos eventos, às vezes eles fazem algumas campanhas de materiais usados e consegue custear o lanche que damos às crianças. Já é uma boa ajuda.

O custo do projeto é todo seu? Passagem, lanche dos meninos/meninas, material, tudo você tira do próprio bolso?
Sim, praticamente todo, tenho ajuda de alguns dos alunos particulares que, quando trocam suas raquetes, me dão as usadas. Alguns me dão roupas também. Mas passagem de alguns e lanche nas aulas não dou mais, pois é um custo muito alto, que não posso bancar, infelizmente. Em dias de festas, tenho algumas pessoas que me ajudam sempre, mas nunca peço dinheiro, peço ajuda em material.

Nem mesmo depois da visita de Guga e Luciano Huck ao seu projeto, depois de aparecer na TV na emissora de mais audiência do país ficou mais fácil conseguir expandi-lo, conseguir mais patrocinadores?
Não, consegui mais conhecimento. As pessoas agora sabem da existência do Projeto, sabem que é algo sério. Mas não consegui nenhum patrocinador. E o foco do programa não foi o projeto, e sim ajudar a uma criança.

Sim percebemos claramente que o foco era o Rafael, mas sempre ficamos na esperança de que quem veja ajude, não é? Enfim, os alunos do “Tênis na Lagoa” competem em algum tipo de torneio? Você tem intenção de fazê-los competir, seja em que nível for?
Eles competem os campeonatos estaduais da federação, mas daqui do Rio de Janeiro. Quando este torneio fica fora do município, fica muito complicado de custear a ida.

Você sabe que o tênis é tido como um esporte de elite, infelizmente. Como você vê a aceitação do esporte nessas crianças que participam do projeto? Você, que lida com eles com freqüência, acha que falta o quê para o tênis se tornar um esporte mais popular no Brasil?
Eu acredito que este esporte, para ficar mais popular, seria preciso aparecer um novo Thomaz Koch ou um novo Guga, porque na era Guga, tínhamos muitas crianças que se espelhavam nele, daí cresceu o número de interessados. No futebol tem sempre tem uns dez ídolos por ano no campeonato brasileiro, que ganham muito, e gastam nada para jogar. No tênis, quando aparece um grande ídolo, olha o tempo que leva para ter outro. Alem do mais, o material é caro. Um bom tênis para jogar não sai por menos de quatrocentos reais e às vezes não dura seis meses. Raquetes, bolas, corda da raquete, sai tudo muito caro, fora o espaço (quadras), que não existem tantos no Rio de Janeiro para se jogar. Enfim, um somatório de coisas que fica muito difícil de se popularizar o esporte.

Entrevistei o Jorge Lacerda, presidente da CBT, recentemente e ele disse que a entidade apóia alguns projetos sociais, mas não tem verba suficiente para atender a todos. Ele disse, porém, que os projetos cadastrados com eles ganham o direito de jogar eventos CBT sem pagar taxas e inscrição. Você sabia disso? Você faz uso desse benefício?
Sim sabemos, já conversei sobre as crianças que já jogam federadas de jogarem também pela CBT, mas estamos esperando para ver como fica a política para o projeto.

Muita gente diz que se tivesse tempo se engajaria em projetos sociais. Você certamente tem outras ocupações e emprego. Como é para você a rotina neste projeto? Como você consegue conciliar as coisas?
Acredito que para mim é mais fácil, porque já estou engajado no esporte e vi que dentro daquilo que domino eu podia ajudar. Mas só posso falar de mim. A vida hoje em dia está muito corrida, mas acredito que dentro de cada coisa que o ser humano domina, que se cada um na sua área fizesse algo para ajudar o outro, mudaríamos muita coisa.

Você sente necessidade de expandir o projeto? Que idéias você tem para o “Tênis na Lagoa”?
Sim, só falta um pouco de tempo, dinheiro e estrutura para isso. Tenho alguns planos sim, mas isso ainda é segredo (risos).

Quer dizer que se você achasse algum investidor o projeto poderia atender ainda mais e de maneira mais profunda um número maior de crianças?
Com certeza. Sei que pode ser meio utópico, mas tenho muitos sonhos a realizar para o projeto. Não só no esporte, mas dar condições melhores no esporte e na vida.

Você trabalharia com voluntários? Se alguém tiver interesse em te ajudar, como deve fazer?
Acho que só nas festas. No dia a dia acho muito complicado, pois cada pessoa tem um pensamento, e eu sei o que quero para o projeto, sei da seriedade e da verdade que o faço, sei do amor que tenho por cada criança. Não sei se conseguiria alguém com o mesmo pensamento que o meu. Mas nas festas funciona muito bem. Este ano, na festa de natal, foi a melhor festa que eu fiz, pois os amigos e alguns alunos colocaram a mão na massa e fizeram uma grande corrente, doando-se num domingo ensolarado de dezembro para fazer o bem. Mas a ajuda pode vir de várias maneiras, através de doações de materiais, ajuda nos torneios para levá-los, se tiver alguma clínica ou médico que queira fazer atendimento gratuito. Muita coisa pode ser feita, é só entrar em contato comigo pelo telefone que está disponível no site ou mandando um e-mail. Toda ajuda é bem vinda.

Alexandre, a palavra agora está livremente com você. Use este espaço pra deixar seu recado como desejar.
Gostaria primeiramente de agradecer o espaço. Pessoas como você, que deixam a gente abrir a boca e dão espaço para falarmos de algo sério, algo que acreditamos, não são muitas. Quero que todos conheçam o Projeto Tênis na Lagoa, que é algo que faço por ideal, e não por grana. Quero que as pessoas que o conheçam queiram ajudar. Qualquer ajuda ou proposta de melhoria é muito bem vinda, as crianças agradecem. Não tenho muito a dizer, e sim só convidar as pessoas que quiserem conhecer uma ação social séria e queiram ajudar, é só aparecer. Serão muito bem vindas.

Quartas de final do Australian Open

A primeira noite das quartas de final do Australian Open deste ano foi, realmente, sensacional. Grandes jogos de tênis, mas sem qualquer surpresa nos resultados, pelo menos para os que eu esperava que acontecessem. Todos os tenistas que acreditei que avançariam assim o fizeram. Vamos aos jogos.


Na Li x Andrea Petkovic
A chinesa fez o dever de casa direitinho e passou por Petkovic com bastante facilidade. Depois de um começo ausente da quadra, Na Li se recuperou e atropelou. Venceu seis games seguidos e fechou o primeiro set. Na segunda parcial a tenista dançarina alemã conseguiu equilibrar um pouco mais o jogo, mas a solidez do jogo da chinesa acabou prevalecendo e a partida se definiu ali mesmo, sem direito a terceiro set. Ela agora enfrenta Caroline Wozniacki na próxima rodada. Parabéns a ambas as tenistas. À Na Li por repetir a semi do ano passado e pela belíssima campanha sem perder sets. À Petkovic por ter ido tão longe e jogando bem. Esperamos, pelo bem do esporte, que ela continue nessa bela ascendente.

Roger Federer x Stanislas Wawrinka
O jogo-duelo entre suíços e o responsável por me manter acordado até duas horas da madrugada, foi um passeio do tenista ex-número um do mundo. Não porque Wawrinka tenha jogado mal, muito pelo contrário, mas porque Federer jogou e sacou – principalmente – demais. Seu jogo foi sufocante e não permitiu que as boas variações e alternativas do rival surtissem efeito. O número um de seu país anulou o excelente saque do número dois com ótimas devoluções, ao mesmo tempo em que ótimas variações no ritmo do jogo e no peso da bola não deixavam que Wawrinka impusesse sua estratégia, como o fizera na partida anterior contra Roddick. O resultado foi um massacre rápido e doloroso. Deve ser muito desestimulante e frustrante para um tenista quando ele faz de tudo, tenta diversos golpes e estratégias, mas seu adversário parece não dar a mínima para isso e faz seu jogo acontecer de forma natural. O número dois do mundo avança e enfrenta Djokovic, que vem jogando barbaramente. Esse jogo promete.

Caroline Wozniacki x Francesca Schiavone
Mais uma batalha em que a italiana se meteu, mas desta vez saiu derrotada. Mas perdeu apenas a partida, pois foi recompensada pelo excepcional torneio com o posto de número quatro do mundo que virá na próxima semana. Schiavone jogou variando muito as jogadas e fez o que se espera quando isso acontece contra Wozniacki: venceu. Mas isso ficou apenas no primeiro set. Depois das batalhas anteriores, o corpo não agüentou mais e vieram os inúmeros erros não forçados e duplas faltas. A número um do mundo só precisou fazer o que sabe muito bem, que é correr, defender e esperar. No fim, a dinamarquesa levou mais uma vez. Ela agora avança, garante a permanência no topo do ranking independente do que aconteça daqui para frente e tem um grande desafio na semifinal: a chinesa Na Li, que joga um tênis muito sólido, consistente e inteligente neste torneio. Vamos ver se ela agüenta o forte ritmo imposto pela asiática. É esperar pra ver.

Tomas Berdych x Novak Djokovic
O jogo que mais prometia nesta noite não foi muito diferente do que vinha acontecendo nos jogos anteriores de Djokovic: um passeio do sérvio. À exceção do segundo set, onde Berdych fez uma bela partida e quase venceu, Nole passeou em quadra e humilhou o tcheco, aplicando duas parciais de 6/1 (o segundo set foi vencido no tie break). Djoko avança e enfrenta um Federer que vem jogando um tênis primoroso, agressivo e exuberante quando não está dormindo em quadra. Se ambos mantiverem o nível, essa semifinal tem tudo para ser um dos grandes jogos da história do torneio.

Hoje temos a segunda parte das quartas de final. Fico com as apostas de sempre: Clijsters e Zvonareva passando com certa facilidade e Nadal e Murray também. Em minha opinião, não vai acontecer qualquer surpresa esta noite. É só aguardar para ver.